sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Capítulo 11

Fico sentada durante algum tempo na cadeira sem saber o que fazer. Fico pensando em como vou entregar o Julio ao mestre e no que possivelmente vai acontecer com ele. Nenhum pensamento era leve ou pelo menos reconfortante. Todas as possibilidades que passam pela minha mente terminam com uma morte horrível para ele e algo pior para mim.
Não dá mais para pensar, preciso fazer alguma coisa. “Eles sabem onde ele mora, podem estar com ele agora.”.
Pego meu celular na mesa e disco:
- Alô. – Julio atende no primeiro toque. Isso é bom.
- Oi Ju, liguei para ver se você melhorou, você saiu mal lá de casa e depois não me ligou, espero que esteja tudo bem...
- Oi Line...desculpa, depois do mico na sua casa fiquei meio sem graça de te ligar.
- Que besteira, você acha que eu nunca passei mal na vida? – hora de fazer o jeito de namorada perfeita - Além disso o Sr. combinou de me ligar assim que acordasse, aposto que não comeu e está aí morrendo. Pelo visto vou ter que cuidar de você de novo... – “preciso descobrir onde ele está”.
- É que eu não queria te incomodar...mas olha, fica tranquila que vou me cuidar inclusive tô indo ao médico pra fazer uns exames e – “MERDA!!!”
- Médico, qual médico? Vou com você, me sinto responsável pelo seu mal-estar. – Puta que pariu, só me faltava essa. Se ele for em um médico vão descobrir que ele é um não-vivo. Vampiros não tem pulsação nem pressão sanguínea, exceto quando se alimentam.
- Não precisa não, relaxa. – Ele não pode ir sozinho ao hospital de jeito nenhum
- Eu não estou pedindo, estou te avisando que vou te encontrar lá.
- OK, estou indo no São Camilo da Pompéia. – Pelo menos é perto.
- Beleza, te encontro lá daqui a pouco.
Preciso ser rápida. Me levanto pego a chave do carro, abro o frigobar e pego um squeeze. Em seguida saio correndo da sala, passo pela Giovanna que está falando com Josué. Ele ainda sangra, “Ótimo, espero que sofra muito”.
- Giovanna, preciso de você agora. Larga esse traste e vem comigo.
Giovanna obedece sem pestanejar, pega a bolsa e saímos do escritório.
- Você vai me levar até o São Camilo da Pompéia. O Julio está indo para lá, se ele passar pelo médico antes de chegarmos vai dar merda. Liga para o nosso contato do hospital e manda ele ficar de olho. Não podemos ter furos.
Eu dirijo rápido pela avenida enquanto Giovanna faz a ligação. As instruções são claras, Julio não pode ser atendido até eu chegar ao hospital.
Paro o carro em frente ao ponto de ônibus da igreja na pompeia. Giovanna sai com o carro e eu desço a passos rápidos.
Julio está na frente do pronto socorro olhando para os lados me procurando.
- Oi, desculpa a demora, estava trânsito. – finjo a preocupação.
- Tudo bem, você nem precisava ter vindo, quer dizer, não é sua obrigação, a gente se conhece há tão pouco tempo para você ficar tendo trabalho assim e – eu dou um beijo nele... tem horas que ele fala demais.
- Hum, estava com saudade sabia? Você pelo menos comeu alguma coisa? – Hora de dar um pouco de vida para esse corpo.
Ele faz um não com a cabeça e eu pego o squeeze na mochila
- Bebe, nem pergunta o que é por que você não vai querer saber.
Julio bebe um grande gole e de repente se dobra gemendo de dor. Como estamos na porta do pronto socorro o segurança chama um enfermeiro e vem com uma cadeira de rodas para acudir o rapaz com dor. Colocamos Julio nela e levamos para dentro do hospital. O enfermeiro me faz algumas perguntas idiotas sobre o que ele tem. Eu invento que ele está sem dormir e não comeu e o cara parece acreditar.
Em seguida ele vem com o aparelho para aferir a pressão. Será que ele bebeu o bastante para o seu corpo reagir? Assim que o enfermeiro coloca a braçadeira Julio abre os olhos. Eu estou fora do cubículo, mas no seu campo de visão. Ele me olha e olha para o squeeze que está no seu colo, com os lábios eu digo “Pode matar”. Ele entende e bebe com o enfermeiro resmungando para ele ficar quieto.
Os segundos passam devagar, então o enfermeiro coloca a mão dentro do cubículo, fora do meu campo de visão e Julio olha para a mão dele, faz uma cara de espanto. “Fodeu”.
Quando ele se levanta e sai eu me acalmo. Julio parece estar furioso, levanta o braço e me mostra uma pulseira verde. Olho para a parede e leio um cartaz que explica como funcionam as cores. Verde = não urgente. Andamos até a sala de espera e nos sentamos esperando para ser atendidos.
Ainda bem que estamos no Brasil. O atendimento é extremamente demorado, além disso, ajudado pelo nosso contato no hospital, a ficha do Julio é passada para trás diversas vezes, se depender do nosso contato ele nunca será atendido. Quase uma hora depois eu me levanto fingindo estar extremamente irritada. Ando até o galpão onde estão os atendentes:
- E então, tudo certo?
- Sim Senhora Aline, o rapaz não será atendido. Agora precisamos apenas convencê-lo a desistir.
- Quanto a isso deixe comigo.
Eu volto até Julio resmungando sobre o absurdo na demora do atendimento. Como todo homem, o rapaz também quer evitar uma namorada irritada.
- Vamos embora, eu já tô melhor e o próprio enfermeiro falou que minha pressão tava legal. Deve ser só fraqueza, prometo que vou me alimentar. – que bonitinho, querendo parecer forte.
- Tenho certeza disso, já que hoje você vai jantar comigo!
Resolvemos testar a força dele andando. Eu sei que com o que bebeu no Squeeze não terá problemas por pelo menos algumas horas, mas preciso ter certeza que está tudo bem, então descemos a avenida a pé.
Julio fala amenidades, mudando o foco da sua fraqueza. Melhor deixar assim. Quando passamos em frente ao Shopping Bourbon eu o puxo para dentro do local dizendo que vou comprar alguma coisa para o jantar. Mando ele ficar do lado de fora do mercado no Shopping e entro. Pego uma garrafa de vinho e uma peça de carne e vou para o caixa, olho para fora e Julio não está lá. “Ótimo”. Vou até a Riachuelo ao lado do mercado e compro uma coisinha para deixar a noite especial. Em seguida mando uma mensagem para ele pedindo que me encontre na porta da loja.
Assim que saio ele olha para mim e eu apenas digo
– Coisa de mulher – ele sorri e saímos do Shopping. Dessa vez vamos para a casa dele, tenho certeza que estão vigiando meu apartamento e o dele, não vão fazer nada enquanto estivermos juntos. Entramos no apartamento dele e finjo surpresa. Olho as fotos no corredor, “Cada foto brega”. Vou até a sala com ele e olho a estante, móveis, finjo interesse pelo local. Sou boa nisso. Ele fica mudo acompanhando meus movimentos.
- Achei que sua casa fosse mais bagunçada... – resolvo quebrar o silêncio.
- Pois é, eu sou meio que super organizado – até parece.
- E onde estão seus pais e irmãos?
- Bom dos meus irmãos só eu moro em São Paulo, os outros moram fora do país, quanto aos meus pais, foram mortos há 6 meses em uma tentativa de assalto.
 - Desculpa, eu não queria te deixar triste.
Eu o abraço forte, um abraço sincero, sei como é perder pessoas que amamos.
- Bom, deixa eu te animar um pouco, a cozinha fica ali né? Liga a TV, se distrai enquanto eu preparo as coisas aqui.
Saio da sala e ouço ele ligando a TV, logo ele está jogando vídeo game. Um daqueles jogos idiotas que as crianças gostam. Eu só atraio homens estranhos mesmo.
Abro a garrafa de vinho e despejo dois envelopes do composto em pó na garrafa. O gosto da bebida vai ficar pouco alterado e ele vai beber feliz. Hora de esquentar as coisas, então pego a sacola com o que comprei na loja e me apronto.
- Ju, me ajuda aqui!!! – Ele vem rápido até a cozinha, eu estou propositalmente de costas com uma das pernas dobradas como se estivesse tentando subir na pia para alcançar alguma coisa. Julio fica parado na porta da cozinha, estou cinta liga e corpete pretos e cabelo solto.
Vendo que ele não entra na cozinha eu me viro, apoio as mãos na pia e digo:
- Me ajuda a pegar as taças? Vamos tomar um vinho.
Julio sorri e anda até mim. Seus olhos percorrem todo meu corpo e sua virilha deixa claro o quanto ele gostou.
Ele levanta o braço para pegar as taças, eu não saio da frente, fico na ponta dos pés e digo no ouvido dele “Gostou da surpresa?” Ele abaixa o braço e me beija. Um beijo forte com tesão. Suas mãos passam pelas minhas costas e apertam minha bunda. Sou levantada e colocada sentada na pia, sua boca continua grudada na minha em um beijo extremamente quente. Transamos com toda nossa vontade na pia da cozinha. Depois, vamos para o quarto para o segundo tempo. Depois do sexo eu deito no peito dele aproveitando o cheiro daquele homem.
- Eu queria vinho. – eu digo isso com a melhor voz de puta que consigo fazer. Na mesma hora ele levanta e sai do quarto. Alguns minutos depois ele está de volta, ainda pelado senta na cama e coloca vinho na taça – Bebe comigo – eu digo, assim ele não coloca na outra taça. Pego a bebida e dou um gole, Julio encosta na cabeceira da cama. Eu passo a taça para ele que bebe quase tudo, me devolvendo em seguida. Eu molho os lábios e deixo cair bebida no meu corpo, a bebida escorre pelo meio dos meus seios e os olhos dele acompanham o liquido descer pelo meu corpo. Julio entendeu o recado, vai ter que beber tudinho.
Acordo assustada com uma sensação ruim no peito “Eu dormi?!?”. São 06h da manhã e Julio acorda com meu movimento brusco. Invento uma desculpa dizendo que preciso ir para casa e em seguida ir trabalhar. Prontamente ele se oferece para me levar. Resolvo aceitar a gentileza, isso me pouparia o trabalho de ficar de olho nele.
Tomamos banho juntos, dessa vez só um banho mesmo, e ele me leva para casa. Chegando lá peço que me espere no carro dizendo que não vou demorar. Subo rapidamente e dou uma olhada em todos os cômodos. Nada fora do lugar, tudo aparentemente em ordem. Troco de roupas e desço.
Julio me leva ao trabalho, fuço no porta luvas e dentre os cds acho um do Raul Seixas. “Adoro Raul”. Coloco para tocar e canto o mais alto que posso revivendo todos os shows que vi. Raul era ainda melhor ao vivo. Peço para ele me deixar na Fradique Coutinho, fingindo que meu trabalho é lá. “Melhor ele não saber o endereço correto”, dou um beijo e desço do carro. Em seguida volto:
- Como o Sr. não tomou café, pelo menos toma isso, vai te fazer bem. Tenha um bom dia. Te adoro. – o “Te adoro” sai sem querer.

- Também te adoro. – ele responde e eu sorrio...de verdade.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Capítulo 10

Pela manhã me levanto para ir para o escritório. Julio já havia ido embora. Depois de passar mal de madrugada, ele se desculpou e foi para casa. Disse que preferia não incomodar, eu não insisti, não estava com paciência para cuidar de ninguém. Ele já estava alimentado, portanto aguentaria mais um dia sem comer.
O dia está nublado, o que facilita minha locomoção, detesto dias ensolarados, mas infelizmente os vivos insistem em funcionar melhor durante o dia. Chego no escritório depois das 10h, Josué e Giovanna estão lá, servos fieis trabalhando como sempre.
O dia passa sem turbulências, algumas reuniões e conferências por telefone para decidir sobre a distribuição do composto, aquisições de empresas e negócios pertinentes a nossa organização. O Chefe se afastou de questões burocráticas e alguém precisava assumir. Sobrou para mim, mais uma função acumulada. Isso dá a devida visibilidade na organização, mas também tem o viés da coisa, eu fico fora da ação e passo a tomar decisões corporativas. Sei que com o tempo precisarei me afastar, mas nada supera as ações em campo. A caçada é sempre deliciosa. A fuga e negação da presa, a captura, o sangue e quando posso, a transformação de novos indivíduos.
Infelizmente o Chefe criou a regra de só transformar alguém com seu aval, não concordo, mas não sou louca de questionar.
Fiz algumas investigações por conta e o que descobri sobre a história dos vampiros aqui me deixou perplexa. Pelo visto alguns vampiros com mais de 100 anos abusaram do poder matando e transformando pessoas a seu bel prazer, com isso, nossa sociedade foi exposta. Isso aconteceu há muito tempo antes da minha transformação. Por causa desses indivíduos, foi realizada uma verdadeira chacina interna. Muitos vampiros antigos e novatos descontrolados foram mortos.
Houve um conselho mundial formado pelos “Irmãos de Sangue” e nesse conselho o Chefe foi nomeado o cabeça da organização no país. Agora somente com o aval dele novos vampiros podem ser criados, e pelo que sei além de mim menos de 10 vampiros tem idade o bastante para conseguir isso.
Quando assumiu a liderança o Chefe fez uma avaliação rigorosa de toda a estrutura e hierarquia estabelecida. Muitos foram destituídos de seus cargos, realocados para outros países ou mesmo mortos. Há quem diga que o próprio Chefe matou quem ousou se opor a sua nova ordem. Eu tive a sorte de não precisar viver essa época e tive mais sorte ainda de ser transformada pelo próprio Chefe, que me acolheu e me ensinou.
Agora sou seu braço direito, mas sei que nem tudo são flores. Vou pagar caro pela minha insubordinação, se não for com a vida será com muito sofrimento.
Olho no relógio e já são 16h então vou até minha sala e fecho a porta, preciso ficar um pouco sozinha. Abro meu notebook e checo meus e-mails. Nenhum comunicado do Chefe. “Estou preocupada, ele está quieto demais.”
Uma sensação de impotência sobe pela minha espinha só de pensar no que vai acontecer comigo quando ele descobrir que o idiota do Danilo morreu. Na verdade, eu tenho certeza que ele já sabe, afinal saiu em todos os jornais. Se ele não viu as notícias, com certeza algum idiota já deu com a língua nos dentes para ele tentando ganhar pontos em cima do meu erro.
Sou tirada dos meus pensamentos quando a porta da sala é aberta e dois indivíduos de ternos pretos entram e sentam nas cadeiras na frente da minha mesa. Não falam nada, mas sei a mando de quem estão aqui.
- E então, qual o recado do Chefe?
O da esquerda abre um sorriso:
- É Aline, você não é tão burra quanto parece. Mas devo dizer que dessa vez você se superou. Matar um alvo escolhido pessoalmente por ele e não comunicar? Ou você é louca ou acha que é muito importante.
Nem um nem outro, eu tive medo de falar com ele, mas não posso transparecer nada para esses idiotas.
- O Chefe não está nada feliz com você. – o indivíduo fala e sorri, dá para ver os caninos um pouco maiores que os normais, eu não tinha dúvida que eram vampiros, mas o tamanho dos caninos entrega a idade. Esse cara tem mais de cem anos.
O outro não fala nada, eu também não. Estou esperando o próximo movimento. Ele coloca a mão dentro do paletó e na mesma hora eu fico totalmente alerta. “Esse cara teria que ser idiota demais para me atacar aqui.” Mas ao contrário do que eu penso, ele tira um papel do bolso e coloca na minha mesa. É uma foto do Julio.
- Então Aline, quem é o rapaz? – finalmente ele fala, sua voz é fria como gelo.
- Não faço ideia. Por que você não me diz?
- Se prefere assim. Seu nome é Julio, mora em uma rua no bairro de perdizes, aliás bem próximo ao seu apartamento. Mas o que mais nos intriga é por que você o transformou? Quer explicar pra nós ou prefere direto pro Chefe?
Eu fico sem palavras, preciso pensar.
- Isso diz respeito somente a mim e ao Chefe, não tenho nenhum motivo para falar com idiotas como vocês.
- Acho mais seguro falar conosco e se for boazinha, talvez possamos matá-lo rápido e sem dor. Ah, e nem adianta tentar escondê-lo. Temos olhos em todos os lugares, inclusive na sala ao lado.
Eu fico quieta por alguns segundos, meus pensamentos voam tentando absorver a última frase “Temos olhos em todos os lugares...inclusive na sala ao lado...quem seria louco ou idiota o bastante?”
- Saiam. – Eu digo isso ficando em pé e apoiando as mãos na mesa, transpareço toda minha fúria naquele momento. Eles vacilam. Não estavam preparados para isso e muito menos para mim. Olham um para o outro e decidem pela saída mais fácil e segura. Se levantam e saem da sala, quando estão passando pela porta um deles se vira:
- Só pra te avisar, já que você não fez o trabalho e ainda transformou uma pessoa sem autorização, o chefe quer uma prova de sua fidelidade. Entregue o rapaz ou mate-o e talvez você fique viva. – dito isso eles saem batendo a porta.
Eu caio sentada na cadeira, o ódio queimando meu corpo. Minhas unhas perfuram o couro do braço da cadeira. Alguém vai pagar por essa traição:
- Josué! – Eu grito.
Alguns segundos depois ele entra na sala, cabeça baixa, cheirando a medo. “Foi ele!”
- Como teve coragem de me trair? Sem mim você não é ninguém. – Ele continua de cabeça baixa – Olhe para mim quando eu falo.
Josué levanta a cabeça e me encara, suas mãos tremem. Ele está apavorado. O filho da puta abre a boca tentando dizer algo, mas não sai som. Eu me levanto da cadeira dou a volta na mesa e paro bem na frente dele. Em um movimento rápido eu pego um abridor de cartas na mesa atrás de mim e enfio no peito dele até o coração.
Os olhos do Josué estão arregalados, a boca está aberta e um filete de sangue escorre de sua boca. Eu puxo o cabelo dele para traz e o sangue escorre pelo queixo caindo na roupa. “Esse babaca não vai sangrar no meu carpete”.
- Nunca...mais...me...traia – a cada palavra eu puxava o abridor de cartas para o lado abrindo mais o corte. – Para sua sorte o abridor de cartas não é de prata e eu preciso de você, caso contrário você já estaria morto.
Eu puxo a lâmina e solto Josué. Ele cai sentado na cadeira com a mão no peito.
- Se limpe e suma da minha frente, você perdeu totalmente minha confiança. Vai precisar de muito para eu voltar a olhar para você.
Josué se levanta e sai cambaleando da sala.

Preciso entregar Julio para o Chefe ou estou morta.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Capítulo 9

Chego em casa e caio sentada no sofá. Pego o celular e olho para a tela apagada. “Espero que ele tenha mordido a isca”.
Começo a pensar em como fazer para me aproximar do rapaz, ou fazer com que um dos meus se aproxime para alimentá-lo adequadamente sem transparecer o que houve. Não tenho como saber qual será a reação dele, se irá surtar, se irá aceitar e sair pensando em dominar o mundo ou se irá se matar. Em qualquer uma das opções que passam pela minha cabeça ele vai chamar mais atenção do que eu gostaria. Então preciso ser perfeita nos meus acertos. Começo a olhar minha agenda buscando alguém de confiança, discrição e inteligência o bastante para me ajudar.
Josué é idiota demais, Giovanna não é de confiança. Pode se aproveitar dele, e até que eu decida o oposto Julio será o meu brinquedo. Enquanto estou olhando a agenda e organizando meus pensamentos a porta se abre, eu me assusto quando vejo Josué entrando pela porta.
- Desculpe Senhora Aline, não sabia que já estava em casa.
- Sabendo ou não seu idiota, a casa não é sua. Quantas vezes preciso ensinar que deve tocar a campainha? E se eu estivesse acompanhada?
- Me desculpe novamente, vim apenas deixar a chave do carro. Já estou indo, a Giovanna está me esperando no carro. Temos que ir até o restaurante.
Dizendo isso ele saiu fechando a porta. O restaurante é na verdade uma fachada da sociedade, todos lá respondem a mim e claro, respondem ao chefe. Josué deve ter feito alguma merda, de novo. A última vez que fui ao restaurante foi a pedido dele que me disse ter uma surpresa. Quando vi estava em uma mesa com um idiota falando que queria trabalhar conosco. Ele dizia que sabia o que fazíamos, “Idiota”, achava que éramos traficantes. A única coisa que valeu a pena naquela noite foi bater a cabeça do cantorzinho de merda na mesa. O cara ficou aterrorizado com a minha força. Depois disso deixei claro que o Josué deveria andar na linha ou iria ter um destino extremamente doloroso. Felizmente minha fama me precede e ele entendeu o recado.
Quem não me conhece acha que sou só uma menininha, inclusive os vampiros que me não me conhecem acham que eu tenho minha posição na hierarquia por algum tipo de favor sexual. Claro que eu uso meus atributos para conseguir as coisas, inclusive várias missões que tive que fazer para o Chefe tiveram sucesso devido ao meu charme, mas o que a maioria desconhece é que eu sou uma das vampiras mais velhas do Brasil. E como com o aumento da idade também aumenta a força, sou bem mais forte do que pareço. São poucos os vampiros que ousaram me desafiar, e sobrou pouca coisa deles para contar a história.
De repente meu celular toca, um frio sobe na espinha, pode ser mais uma mensagem do mestre. Olho a tela e é uma mensagem de um número que não existe na minha agenda. Fico aliviada e sorrio. Ele mordeu a isca.
21h37 - Oi... – Ah rapaz, você pode fazer mais do que isso, mas vamos ver até onde vai.
21h43 - Oi...
21h43 - E aí, fumou o cigarro que te dei?
22h44 - Não, tá aqui ainda, tô me segurando. – se ele souber que joguei fora ficará triste?
21h45 - Foi mal, acho que não tô ajudando a largar o vício né?
21h50 - Pois é, acho que vc é uma má influência rs
21h55- Vc não viu nada! – Pelo amor de Deus, quantas mulheres esse idiota já xavecou? Pelo jeito terei que ajuda-lo.
21h58 - Sério? E qdo vai me mostrar?
22h00 - Bom, ainda é cedo, que tal hoje? – Aleluia.
22h01 - Nossa, como vc é apressadinho rs...mas tudo bem...pode me encontrar na padaria da Antártica perto do West, ou não sabe onde é?
22h03 -  Claro...chego lá em 30 minutos, só o tempo de tomar uma ducha...
22h06 - Bom, sabe como é mulher, vou levar pelo menos uma hora, consegue aguentar? – Vamos ver se ele está a fim.
22h07 - Pra ver vc? Com certeza vai valer a pena...te vejo lá.
Me levanto do sofá e vou em direção ao banheiro. Olho para a porta do quarto dos brinquedos, as lembranças voltam a minha mente, foi muito bom usá-lo. Meu brinquedo sabe como me satisfazer.
Tomo um banho demorado, saio e passo creme pelo corpo todo. Hoje a noite promete. Separo uma roupa simples, mas que chama atenção. Uma calça jeans preta bem colada, uma blusinha preta de alcinha que mostra meus seios. “Sexy sem ser vulgar.” Faço uma maquiagem leve mas capricho no batom, vermelho cor de sangue para chamar muita atenção. Com certeza ele vai ter uma surpresa.
Acabo demorando mais do que pretendia me arrumando. Saio de casa depois das 23h20. Com certeza ele vai me esperar, não é todo dia que ele sai como uma mulher como eu, na verdade eu tenho certeza que ele nunca teve uma mulher como eu.
Ando devagar aproveitando a noite. O clima está especialmente agradável. Não está quente, nem frio, não que faça diferença, afinal o clima não importa para nós. Eu poderia andar de jaqueta no deserto ou de vestidinho no inverno americano sem me importar. As roupas que usamos servem apenas para auxiliar a passarmos despercebidos.
Levo pouco mais de 10 minutos caminhando, e quando estou chegando meu celular toca. Mais uma mensagem de texto “Desculpa, tô chegando”. Não acredito que eu vou ter que esperar por ele. Eu nunca espero.
Quando estou chegando vejo o palerma em pé me procurando nas mesas. Fico parada observando por alguns segundos ele está agitado, parece preocupado. “Ótimo” preciso dele na minha mão. Melhor acabar logo com a agonia dele.
- Ah, eu já estava indo embora, mas vi sua mensagem no celular e resolvi voltar...e aí, perdeu a hora gato?
Ele se vira meio sem graça, mas com os olhos brilhando. Assim que me vê fica sem folego.
- Foi mal...acabei não vendo a hora...belo começo né?
- Bom, sua sorte é que eu também me atrasei e achei que você tinha ido embora, então podemos considerar vacilo dos dois lados, que tal? – Normalmente eu mandaria matar um idiota desses, mas ainda não é a hora.
Ele fica ali parado sorrindo feito um idiota. Será que escolhi errado?
Eu tomo a iniciativa e peço uma mesa ao garçom. O garçom é um velho conhecido meu, um vampiro chamado Edgard. Trabalha para mim, mas a meu pedido fica fora dos negócios da organização. É um faz tudo que fica próximo quando eu preciso. Pouca gente sabe que ele existe e é melhor manter assim. Hoje ele será de muita valia.
- Vou tomar um Blood, e você também, já que me deixou esperando vai ter que pagar um mico...e nem adianta perguntar, eu não vou dizer o que tem na bebida. – ele continua sorrindo. Está comendo na minha mão.
Chamo Edgard e peço a bebida, ele sabe como fazer. A bebida é o preparo que tomamos para não precisarmos de sangue. Um saco na verdade, afinal nada supera o gosto do sangue. Em questão de minutos a bebida chega, o composto foi misturado a vodca Absolut, afinal eu não bebo qualquer coisa, o que dá um toque de classe.
Eu tomo um gole do meu copo e Julio dá um gole do dele, na mesma hora seu corpo reage. As maças do rosto dele ficam vermelhas e o corpo começa a ter um pouco de cor. Ele bebe o copo em segundos sem nem perceber, logo pedimos o segundo, terceiro e assim vai. Julio fica um pouco alegre, mais efeito psicológico do que da bebida. A conversa flui bem, ele me conta toda sua vida e eu conto o que ele precisa saber. Invento que trabalho em uma agencia de publicidade, moro sozinha e sou uma pessoa simples. “Ah, será uma delícia contar para ele quem eu sou!”
Por volta das 02h da manhã Edgard nos avisa que o estabelecimento está fechando, o medo está em seus olhos, afinal isso deveria ficar aberto o quanto fosse necessário para me satisfazer. Mas avaliando a situação eu deixo passar e ajo com naturalidade. Julio pede a conta e Edgard olha em minha direção confuso. Eu faço um meneio de cabeça e o garçom se retira voltando alguns minutos depois com a comanda e a máquina de cartões. O rapaz esbanja cavalheirismo e paga toda a conta, eu faço um charme dizendo que devo pagar pelo menos a metade, mas ele insiste.
Mantendo o cavalheirismo em alta Julio me acompanha até em casa, em alguns momentos ele deixa sua mão tocar na minha “sem querer” e eu sorrio em aprovação. O rapaz realmente é lerdo.
Paramos na frente do prédio e Julio me encara. “O que mais ele quer para me beijar”. Minha paciência acaba e eu o beijo, sou imediatamente correspondida, sua língua entra na minha boca e já não sei quem domina quem.
Subimos para o apartamento levados pela volúpia do momento, foi um pouco complicado abrir a porta sendo empurrada contra ela, mas eu consegui. Entramos e eu arranco sua camiseta jogando sobre o sofá. Ele faz o mesmo com minha blusinha e meus seios ficam a mostra. Suas mãos passeiam pelo meu corpo e brigamos para ver quem tira a roupa de quem. Eu o empurro pela sala, corredor e ele me vira de costas prensando meu corpo contra a porta e beija meu pescoço. Não consigo suprimir um gemido e Julio comemora. Estamos na porta do quarto dos brinquedos, por sorte essa porta fica sempre trancada. Tento me soltar, mas suas mãos prendem meus braços, “Ele é forte, mais do que parece, mais do que um vampiro comum”.
Solto meus braços, me desvencilho do seu abraço e o puxo pelo cinto da calça até meu quarto. Julio vem fácil como um cachorrinho ensinado. Me deito na cama e ele vem por cima. Tira o resto da minha roupa beijando cada pedacinho do meu corpo. A cada toque de sua boca eu me arrepio, de repente eu não resisto mais e me entrego. Eu sou dele.
Eu não durmo, não preciso e de madrugada quase nunca consigo, mas Julio dorme profundamente ao meu lado, abraçado a mim, com seu braço envolvendo meu corpo. Ele ainda não está habituado e não se alimentou direito, só isso justifica seu sono. Mas além de tudo isso gastamos muita energia.
De repente sinto ele tremer e acordar, cuidadosamente seu braço sai de baixo do meu rosto e eu me aninho nele, fingindo continuar dormindo. Ele se esforça para sair da cama sem fazer barulho para não me acordar. O que houve?
Ele levanta e sai atrapalhado pelo quarto tropeçando em uma das peças de roupas do chão. O tombo é feio, mas ele vai sobreviver. Finjo que acordei e como uma gata no cio eu gemo.
- Onde você vai Ju?
- Ao banheiro. – A voz dele deixa claro que não está bem. Eu levando e resolvo ajudar o moribundo. Finjo medir febre e simulo limpar minha mão na camiseta como se ele estivesse suando. Coloco seu braço em volta do meu pescoço e o levo ao banheiro. Ele vomita o pouco de coisa que ainda tem no estomago. O que sobrou é só vodca, todo o resto foi absorvido pelo organismo fraco e sedento de alimento.
Tentando manter o pouco de dignidade que lhe resta ele pede que eu saia do banheiro. Eu obedeço, vou até o quarto e coloco um short. Em seguida vou para a cozinha.
Preparo uma bebida quente, um chá com o mesmo composto que ele bebeu na padaria. Na verdade, ele pode até se alimentar disso puro, mas como vem em pó, é melhor hidratar com alguma coisa, normalmente usamos água.
Esse composto substitui nossa necessidade por sangue, mas não nossa vontade. Julio sente falta, mas não sabe do que já que nunca bebeu sangue. É como um virgem sentir falta de sexo, existe a necessidade, a vontade, mas é impossível saciar já que não faz ideia do que precisa, porém como um animal no cio, um vampiro recém transformado age por instinto, meu receio é ele perder o controle em alguma situação que envolva sangue. Basta uma besteira para tudo sair do controle.
Me sento a mesa com minha caneca do Star Wars e bebo calmamente enquanto aguardo Julio parar de beijar a privada. Deixo uma caneca servida para ele beber alguns minutos depois ele vem cambaleando, seus olhos me encontram na mesa e ele fica hipnotizado.
- Ju, senta aqui e toma um chá, acho que a bebida de hoje não te fez bem. – “Eu sou tão boazinha.”

Ele senta, pega a caneca e olha. É o Darth Vader. Julio sorri e bebe. Sabia que ele ia gostar.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Capítulo 8

Não consigo tirar o Julio da minha cabeça. Faz alguns dias que o transformei e ainda não sei o que fazer com ele.
Não posso dizer ao chefe o que fiz, mas também não posso esconder uma coisa dessas...se ele descobre por outras fontes, nem quero pensar no que vai acontecer. No mínimo serei morta de uma maneira bem desagradável. Desde o fiasco com o Danilo Mansur venho sentindo uma sensação de pânico crescente. O Chefe mandou uma mensagem, mas não me atrevo a retornar sei o meu lugar e o conheço bastante pra saber que devo espera.
Sempre que posso tenho vigiado o rapaz. Ele não saiu muito desde que o devolvemos a sua vidinha medíocre. No máximo foi a padaria. Pelo visto esse cara não tem nada pra fazer da vida.
Hoje estou me sentindo especialmente enjaulada, não aguento mais essa tensão e preciso extravasar. Minha vontade é sair por aí, matar no mínimo umas duas pessoas e não deixar nenhuma gota. “Chega, não aguento mais ficar aqui.”
Pego minha bolsa e resolvo sair da empresa, mas antes disso preciso fazer uma ligação:
- Josué. Estou deixando meu carro no escritório, pegue a chave reserva e leve pra minha casa. – Josué não questiona minha ordem, ele sabe que muitas vezes eu gosto de andar entre os vivos. Não tem nada de especial, na verdade gosto da sensação de poder que tenho ao andar. Os homens me olham de cima a baixo, mexem comigo e acham que podem conseguir alguma coisa. Mal sabem eles que se eu quisesse poderia matar qualquer um sem me cansar ou sentir qualquer tipo de remorso.
Saio da empresa e logo estou na avenida Sumaré. A avenida é bem arborizada e tem uma ciclovia no centro. Muita gente anda, corre, patina, pedala, enfim, fazem uma série de coisas em um culto ridículo pela saúde e beleza. “Patético, logo ficarão velhos e enrugados”.
Continuo andando alheia a tudo que se passa, minha cabeça volta ao quarto dos brinquedos no meu apartamento, volta aos momentos que antecederam a transformação do Julio. A lembrança me aquece, se é que isso é possível, lembro do momento exato da morte dele. Estava olhando para aquele corpo nu amarrado na mesa, tinham vários cortes feitos por mim durante nosso tempo juntos e eu tremia. Pela primeira vez em mais de 1 século eu estava nervosa.
Não era minha primeira transformação é claro, mas era a primeira que eu não tinha autorização para fazer. Mas eu tinha que fazer. Precisava dele ao meu lado.
- Moça, por favor, me diz que você fuma e tem fogo pra emprestar. – sou arrancada do meu devaneio por uma voz que me tira o chão. Bem na minha frente está Julio. Me controlo pra não transparecer nada e sorrio.
- Deu sorte, eu estou parando de fumar, mas sempre tenho meu isqueiro comigo, se me der um cigarro te empresto o isqueiro, que tal? – Realmente tenho um, mas parando de fumar é piada. Abro a bolsa e pego o isqueiro no bolsinho, do lado de um maço de Marlboro.
- Fechou! – ele está pálido. Pelo visto está sentindo os efeitos da não alimentação. Com certeza tentou comer mas não conseguiu. Eu devia ter ensinado alguma coisa mas não deu tempo Não podia deixar pistas para o chefe, não até eu decidir o que fazer.
Ele acende o cigarro e dá um trago como uma pessoa se afogando puxa o ar, eu acendo o meu e trago forte, ele me olha nos olhos.
- Obrigado, não aguentava mais de vontade de fumar.
- E como você sai de casa com cigarro sem isqueiro? Promessa, autoflagelo, do que se trata?
Ele ri, sua risada é uma delícia. Logo conversamos como se nos conhecêssemos há séculos. Sou acompanhada até o cruzamento e sigo meu caminho para casa. Preciso vigiar ele de perto, arrumar um jeito de alimentá-lo. A última coisa que preciso é de um vampiro idiota e inexperiente atacando pessoas por aí. De repente ouço um grito:
- Aline! – me viro e lá vem ele correndo. Eu sorrio, mas minha vontade é gargalhar. Que cena mais idiota. - Olha, eu tava pensando que talvez você tenha ainda vontade de fumar, então vou deixar alguns cigarros, que tal?
- E essa gentileza vai me custar? – eu sorrio mais ainda, o xaveco é fraco, mas pelo visto ele não é tão idiota quanto parece.
- Bom, pode começar com o seu telefone e a permissão pra eu te ligar mais tarde, que tal? – Meu Deus. Retiro o que eu disse, ele é um idiota.
- Isso realmente funciona com alguma mulher? – eu pego um cigarro e saio andando deixando ele sozinho coçando a cabeça, Depois de alguns passos me viro e ele ainda está parado olhando, então eu grito:
- Ei Romeu, anota aí meu número, manda uma mensagem e vamos ver o que dá.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Capítulo 7




Saí do quarto de brinquedos, deixando Júlio amarrado e quase sem consciência. Provavelmente iria apagar por um tempo, até se recuperar novamente.
Já eu tinha me extasiado, perdido o controle e feito uma besteira. O que aconteceu não deveria ter acontecido. Bom, mas mal feito, feito.
O que precisava mesmo era colocar a cabeça no lugar, pensar e achar uma solução para o problema com meu chefe. Tinha de ter alguma ideia ou seria tarde. Ao mesmo tempo, aquele “silêncio” todo dele me deixava preocupada. Sabe aquele ditado que diz “Quando criança tá quieta, é porque tá aprontando”? Então, era quase isso, exceto pelo fato de que ele era infinitamente mais velho que uma criança.
Vindo juntamente com a corte portuguesa em meados do século XVIII, Eduardo já tinha visto muita coisa nessa vida. E manchou essa terra com muito sangue inocente. Vampiros não tinham muita discrição naquela época, coisa diferente de hoje.
Usou e abusou das suas habilidades e da sua lábia secular. Mas já estava com uma certa idade. Os cabelos estavam ficando grisalhos, as unhas cada vez mais duras e os olhos mais avermelhados.
Sim, nós envelhecemos. Entretanto, muito mais lentamente do que um ser humano, pois nosso tempo de envelhecimento demora séculos.
Eu nunca vi um vampiro muito velho. Dizem que eles saem de circulação ao longo dos anos, pois sua aparência vai ficando cada vez mais horripilante. Ficam em lugares ermos, abandonados, longe da civilização. Algumas de minhas fontes que frequentam o círculo dos velhotes comentam que uns vampiros insanos garantem o retorno dos monstruosos. E que esse será o começo do fim.
Três batidas fortes na porta do meu quarto me fizeram dar um pulo ante a esse pensamento.
- Quem é?
- Oi Aline, é a Giovanna.
- Pode entrar, está aberta.
Giovanna abriu a porta do quarto. Os cabelos loiros balançando enquanto caminhava. O vestido azul marinho que emoldurava sua cintura e a bota preta estavam incríveis. Era uma mulher muito bonita, sem dúvidas. Não era à toa que o mestre me permitiu convertê-la em não-viva.
- Tudo bem com você? - quis saber Giovanna.
- Tudo bem sim. Essa noite foi muito puxada para mim. Estreei meu brinquedo novo.
- Sério? - Giovanna quis fazer uma cara de quem acabou de saber uma fofoca daquelas, mas ficou parecendo maligna. - Me conta, vai!
Olhei bem pra cara dela.
- Não sei se devo. Será? - levantando a sobrancelha.
- Lógico que deve! Você sabe que eu não escondo nada de você, lembra? - soltou Giovanna. Se tinha uma coisa afiada naquela vadia além das unhas, era a língua.
- Idiota! Não vou te contar nada, hahaha. Fica na curiosidade só por causa dessa resposta.
- Não, Aline, por favor! Me conta, o que você fez com ele!?
- A única coisa que você precisa saber é que o sangue dele realmente é incrível. E ele sente dor como qualquer outro humano, mas nele eu vi raiva e não medo.
- O camarada deve ser duro na queda. - comentou Giovanna.
Me lembrei do olhar do humano.
Castanhos, raivosos, incisivos. Normalmente os humanos temem os vampiros...
Uma ardência subiu dentro de mim ao lembrar dele, misturado com o sabor inigualável daquele sangue dentro do meu ventre.
Quando eu vi era tarde...
- Aline?
Estava em cima dele... Gemidos contidos...
- Aline?
Mordi a jugular dele...
- ALINE! - gritou Giovanna.
- O que foi? - respondi calmamente. Olhei para Giovanna. A cena do que havia acontecido estava agora em frangalhos na minha mente, desaparecendo, enquanto meu raio de visão focava meu quarto novamente.
- Você mandou me chamar e vai ficar aí viajando? - rasgou Giovanna.
A ira que senti acendeu meus olhos. Giovanna tremeu nesse momento, mas logo eles se apagaram.
- Olha, Giovanna, tenha mais respeito comigo e controla essa língua pra eu não ter que arrancar ela fora. Não é porque eu te criei que eu não posso te trucidar, ok?
- Tudo bem... Foi mal, Aline! - soltou, Giovanna, tão contrariada que parecia que estava engolindo um sapo gordo e sem sebo, pra dificultar bem a descida goela abaixo.
- É o seguinte: quero que você prepare o Júlio lá no quarto de brinquedos. Deixe-o limpo para hoje a noite para mim. Depois, aproveite para chamar Josué. Quero falar com ele também. - mandei.
- Sim, Aline - disse Giovanna, que ficou parada me olhando.
- É pra hoje, né, Giovanna?
- Ah, achei que você ia me c...
- Já disse que não! Agora saia daqui!
Giovanna saiu bem rápido e fechou a porta do quarto.
Inferno! Essa garota era uma doida, isso sim! E do jeito que a língua dela estava, era melhor não comentar nada acerca do que houve na noite passada.
Josué bateu na porta e pedi para que entrasse. Ele estava com uma expressão de que iria tomar chibatadas a qualquer momento.
- Pediu para me chamar, senhora Aline?
- Sim, Josué. Quero que você fique de guarda aqui para mim hoje, dividido em dois períodos. Um enquanto eu tiro uma soneca para recompor as forças daqui a pouco e outra para ficar aqui na porta do quarto de brinquedos. Tudo bem?
- Sim, senhora. Mas posso saber porque a senhora quer que eu fique de guarda na porta?
- Sabe o brinquedo que vocês me trouxeram ontem?
- Positivo.
- Eu o escolhi para ser meu. Vou transformá-lo em vampiro.
- Você tá falando sério?
- Sim, estou falando sério. Algum problema?
- Não, nenhum. - respondeu Josué, olhando para o lado.
- Então dá licença que eu preciso dormir.
- Ah... Tudo bem! Bom descanso. - respondeu ele, antes de encostar a porta.
No quarto escuro, consegui ter um pouco de paz. E analisei melhor minha situação.
Queria transformar Júlio, de fato. Queria ele para mim. E passeando pelos caminhos da memória, lembrei uma conversa que tive com Eduardo, algumas semanas atrás.
- Aline, o sucesso dessa missão depende única e exclusivamente de você. Não podem haver erros. Não podem haver falhas. Precisamos de Danilo entre os nossos. Tenho certeza de que ele se sairá muito bem. - disse ele, com a voz metódica e fria.
Estávamos em uma convenção onde Danilo faria uma recepção de pessoas importantes da sociedade paulistana.
Eduardo era alto, trajava um terno preto. Na mão direta tinha uma bengala, com uma cabeça de serpente. A unha do indicador batia impaciente em cima do ornamento, produzindo um tilintar inaudível a humanos.
- Fique tranquilo, chefe. Tenho tudo esquematizado em minha mente.
- Ótimo. Traga-me o que quero e deixarei você transmutar mais um mortal. - mencionou, olhando fixamente para Danilo. - Confio em você, Aline! - terminou ele, apoiando as duas mãos na bengala e apreciando o discurso do humano no palanque.
Eu sabia que não podia contrariar as ordens dele. Só que a vontade de transformar Julio e tê-lo só para mim era mais forte do que qualquer outra coisa. E com o humano em minha mente, acabei adormecendo.


***


Algumas horas depois, acordei. Havia dormido praticamente o dia inteiro. E esse momento de descanso me fez adquirir ainda mais convicção de queria aquele homem para mim. Sem delongas, troquei de roupa, preferindo dessa vez somente uma calça jeans preta e uma camisa branca, com um salto pequeno.
Penteei os cabelos e saí do meu quarto. Ao dobrar o corredor, avistei Josué parado em frente ao quarto de brinquedos, mexendo no celular. Pela forma como ele o segurava, parecia que estava jogando algo.
Estava sentado com as pernas abertas e os cotovelos apoiados nos joelhos, segurando o aparelho. Parecia um armário de tão grande.
- To vendo que esse entretenimento virtual está bem interessante, não?
- Desculpe, senhora Aline. - disse ele, guardando o celular no bolso. - Estava entediado.
- Tudo bem, não precisa me explicar. Já deu uma olhada no brinquedo?
- Sim. A Giovana cuidou dele, conforme a senhora recomendou. Os cortes estão estancados, somente.
- Perfeito! Chame ela e fiquem os dois aqui no apartamento. Não quero ter nenhum tipo de interrupção essa noite. Fique com meu celular caso alguém me ligue.
- Pode deixar, senhora Aline. - disse Josué, que se levantou e saiu do corredor em seguida.
Entrei no quarto e o tranquei por dentro.
Júlio estava deitado na mesa, consciente. Conseguiu levantar a cabeça somente um pouco para me ver chegando.
Manteve o mesmo olhar da noite anterior. Tinha fagulhas de ódio, sim! Só que o desejo ardente de me possuir estava ali.
- Veio aqui me zoar de novo? - alfinetou ele.
- Não exatamente. A partir dessa noite, tudo mudará para nós dois.
- O que quer dizer com isso? Por favor, me solte! Não tenho nada a lhe oferecer! Por que está fazendo isso comigo?
- Ssshhh, calma. Logo tudo estará acabado. Olha bem no fundo dos meus olhos e fala pra mim o seu endereço, Júlio.
Sem pensar, o humano soltou a informação de forma automática, como se tivesse esperando para falar aquilo. Mal sabia ele que eu o tinha compelido a falar apenas com o poder da minha mente. A hipnose cessou quando desviei os meus olhos, deixando ele tentando raciocinar o que tinha acontecido.
- ME SOLTE! - gritou Júlio.
Coloquei o dedo na boca dele, num sinal para que ficasse quieto.
Me aproximei bem e fiquei encarando-o por um tempo. Ele não sabia se tinha medo dos meus olhos rubros ou do jeito como minhas presas apareciam para ele enquanto eu sorria.
- Júlio… - chamei.
Ele me olhou de novo e dessa vez fui firme naquele dom obscuro que possuía.
- Eu quero que você se esqueça de absolutamente tudo o que aconteceu aqui dentro. Você não vai se lembrar que eu bebi do seu sangue, nem vai se lembrar do que acontecerá em seguida. Mas, logo menos, vamos nos encontrar novamente. Entendeu?
- Sim, eu entendi! - respondeu Júlio, com os olhos sem expressão, que miravam o vazio.
Acariciei os cabelos dele e o beijei nos lábios. No começo, foi um beijo tímido, entretanto, senti que ele me correspondeu. E partimos para um beijo de verdade, daqueles que me faziam perder o ar quando era apenas uma pessoa normal.
- Agora, durma, meu querido. Pois você acordará novamente muito em breve.
E obedecendo mais uma vez, Júlio cerrou os olhos, mas estava num estágio de consciência em que ainda era possível ouvir e responder minhas perguntas.
Olhei cada corte do corpo pensando em qual eu deveria sangrar. Olhei pro da virilha, pescoço, braço, mas não achei nada poético o bastante.
- Como tudo que aconteceu entre nós, sua morte será especial. – Sussurrei no ouvido dele, que gemeu como resposta.
Apesar de responder ao transe, apaguei suas memórias pra que não lembrasse de nada que tinha acontecido. No máximo ele poderia sonhar, tendo vislumbres de cenas fragmentadas em sua mente. Resolvi fazer um corte, com a faca abri um corte de quase 5cm no meio do peito dele, o sangue começou a escorrer na hora e eu limpei com a língua. Fiz o mesmo com a faca, em seguida fiz um corte no meu pulso.
O sangue pingou no corpo dele. Nosso sangue é mais grosso que o humano, isso porque nosso coração praticamente não bombeia sangue pelo corpo e ao nos alimentarmos nosso corpo absorve tudo que pode. Nós não eliminamos nada, não urinamos, nem suamos. Somos quase como uma esponja.
Eu posiciono meu pulso acima do corte e deixo as gotas caírem. Alguns segundos depois que meu sangue entra na corrente sanguínea dele, o corpo começa a morrer. Julio começa a ter convulsões. É um sinal do organismo tentando em vão lutar contra o vírus. Não tem jeito, assim que bebi o sangue dele, meu corpo fez o vírus perfeito para o seu corpo e a transformação é inevitável. Dois minutos depois Julio soltou o último suspiro e morreu.
Fiquei olhando para o corpo de Júlio. Mesmo inerte e sem vida, ele continuava perfeito e tinha o mesmo magnetismo.
Desamarrei os nós das mãos e dos pés o arrumei em cima da mesa, com os braços ao lado do corpo.
Fui para a sala falar com Giovana e Josué.
- Olá, dupla de vacilos.
Os dois se levantaram do sofá. Na televisão passava um programa de dois gêmeos que reformavam casas americanas.
- Vamos dar uma volta? Quero levar o brinquedo de volta pra casa dele.
- Você sabe onde ele mora? - quis saber Giovana.
- Eu descobri. Tenho meus meios pra isso! - respondi, piscando o olho para ela. - Josué, pegue o brinquedo, por favor.
Giovana ficou comigo na sala enquanto meu guarda costas voltou para o quarto de brinquedos.
- Não vai me contar mesmo o motivo dessa movimentação toda? Você sabe que pode confiar em mim, Aline. - soltou Giovana, de braços cruzados.
Suspirei fundo antes de responder.
- Depois que tive meu momento com o humano e bebi o sangue dele, fiquei eufórica. Estava embriagada com aquele momento e acabamos transando.
Giovana arregalou os olhos vermelhos.
- Você o queeee...? Bom, mas até aí tudo bem. Agora vamos direto ao problema.
- Bem...eu me apaixonei por ele. E sinto que fui correspondida.
Nisso, Josué trouxe o corpo de Júlio nos braços.
Giovana olhou pro brinquedo e travou. Em seguida, olhou para mim.
- Você o transformou!? Eu sinto que ele não é mais humano.
- Sim. Pode parecer fútil para vocês, me olhando dessa maneira. A verdade é que faz muito tempo que não me sentia desse jeito. É como se eu estivesse viva de novo! - disse.
E era verdade. Estava sendo sincera com os dois.
Saímos do meu apartamento em silêncio. Seguimos sentido garagem do prédio e entramos no meu carro. Josué assumiu a direção e Giovana foi no banco do passageiro.
Deitamos Júlio no banco de trás, com a cabeça apoiada no meu colo. Estava com as chaves do prédio dele, então quando chegamos foi fácil entrar. Me lembro que quando entramos, cruzamos com algum morador do prédio, que nos encarou de forma estranha.
- Deu PT, coitado dele! - disse Giovana para o homem, dando uma risadinha debochada.
- Boa noite! - respondeu o sujeito, apenas, acenando como se na verdade quisesse dizer "vai te catar".
Subimos até o sétimo andar, onde ficava o apartamento de Júlio. Abrimos a porta e, com bastante cuidado, o colocamos na cama.
Com a mesma quietude que entramos, saímos do prédio. Ainda bem que somos tão sutis quanto os felinos para caminhar sem fazer barulho.
Agora era só uma questão de tempo.
Como fui a última a sair, pude perceber que, antes de fechar a porta, vi o polegar de Júlio tendo o primeiro espasmo nervoso.