Saí do quarto de brinquedos, deixando Júlio amarrado e quase sem consciência. Provavelmente iria apagar por um tempo, até se recuperar novamente.
Já eu tinha me extasiado, perdido o controle e feito uma besteira. O que aconteceu não deveria ter acontecido. Bom, mas mal feito, feito.
O que precisava mesmo era colocar a cabeça no lugar, pensar e achar uma solução para o problema com meu chefe. Tinha de ter alguma ideia ou seria tarde. Ao mesmo tempo, aquele “silêncio” todo dele me deixava preocupada. Sabe aquele ditado que diz “Quando criança tá quieta, é porque tá aprontando”? Então, era quase isso, exceto pelo fato de que ele era infinitamente mais velho que uma criança.
Vindo juntamente com a corte portuguesa em meados do século XVIII, Eduardo já tinha visto muita coisa nessa vida. E manchou essa terra com muito sangue inocente. Vampiros não tinham muita discrição naquela época, coisa diferente de hoje.
Usou e abusou das suas habilidades e da sua lábia secular. Mas já estava com uma certa idade. Os cabelos estavam ficando grisalhos, as unhas cada vez mais duras e os olhos mais avermelhados.
Sim, nós envelhecemos. Entretanto, muito mais lentamente do que um ser humano, pois nosso tempo de envelhecimento demora séculos.
Eu nunca vi um vampiro muito velho. Dizem que eles saem de circulação ao longo dos anos, pois sua aparência vai ficando cada vez mais horripilante. Ficam em lugares ermos, abandonados, longe da civilização. Algumas de minhas fontes que frequentam o círculo dos velhotes comentam que uns vampiros insanos garantem o retorno dos monstruosos. E que esse será o começo do fim.
Três batidas fortes na porta do meu quarto me fizeram dar um pulo ante a esse pensamento.
- Quem é?
- Oi Aline, é a Giovanna.
- Pode entrar, está aberta.
Giovanna abriu a porta do quarto. Os cabelos loiros balançando enquanto caminhava. O vestido azul marinho que emoldurava sua cintura e a bota preta estavam incríveis. Era uma mulher muito bonita, sem dúvidas. Não era à toa que o mestre me permitiu convertê-la em não-viva.
- Tudo bem com você? - quis saber Giovanna.
- Tudo bem sim. Essa noite foi muito puxada para mim. Estreei meu brinquedo novo.
- Sério? - Giovanna quis fazer uma cara de quem acabou de saber uma fofoca daquelas, mas ficou parecendo maligna. - Me conta, vai!
Olhei bem pra cara dela.
- Não sei se devo. Será? - levantando a sobrancelha.
- Lógico que deve! Você sabe que eu não escondo nada de você, lembra? - soltou Giovanna. Se tinha uma coisa afiada naquela vadia além das unhas, era a língua.
- Idiota! Não vou te contar nada, hahaha. Fica na curiosidade só por causa dessa resposta.
- Não, Aline, por favor! Me conta, o que você fez com ele!?
- A única coisa que você precisa saber é que o sangue dele realmente é incrível. E ele sente dor como qualquer outro humano, mas nele eu vi raiva e não medo.
- O camarada deve ser duro na queda. - comentou Giovanna.
Me lembrei do olhar do humano.
Castanhos, raivosos, incisivos. Normalmente os humanos temem os vampiros...
Uma ardência subiu dentro de mim ao lembrar dele, misturado com o sabor inigualável daquele sangue dentro do meu ventre.
Quando eu vi era tarde...
- Aline?
Estava em cima dele... Gemidos contidos...
- Aline?
Mordi a jugular dele...
- ALINE! - gritou Giovanna.
- O que foi? - respondi calmamente. Olhei para Giovanna. A cena do que havia acontecido estava agora em frangalhos na minha mente, desaparecendo, enquanto meu raio de visão focava meu quarto novamente.
- Você mandou me chamar e vai ficar aí viajando? - rasgou Giovanna.
A ira que senti acendeu meus olhos. Giovanna tremeu nesse momento, mas logo eles se apagaram.
- Olha, Giovanna, tenha mais respeito comigo e controla essa língua pra eu não ter que arrancar ela fora. Não é porque eu te criei que eu não posso te trucidar, ok?
- Tudo bem... Foi mal, Aline! - soltou, Giovanna, tão contrariada que parecia que estava engolindo um sapo gordo e sem sebo, pra dificultar bem a descida goela abaixo.
- É o seguinte: quero que você prepare o Júlio lá no quarto de brinquedos. Deixe-o limpo para hoje a noite para mim. Depois, aproveite para chamar Josué. Quero falar com ele também. - mandei.
- Sim, Aline - disse Giovanna, que ficou parada me olhando.
- É pra hoje, né, Giovanna?
- Ah, achei que você ia me c...
- Já disse que não! Agora saia daqui!
Giovanna saiu bem rápido e fechou a porta do quarto.
Inferno! Essa garota era uma doida, isso sim! E do jeito que a língua dela estava, era melhor não comentar nada acerca do que houve na noite passada.
Josué bateu na porta e pedi para que entrasse. Ele estava com uma expressão de que iria tomar chibatadas a qualquer momento.
- Pediu para me chamar, senhora Aline?
- Sim, Josué. Quero que você fique de guarda aqui para mim hoje, dividido em dois períodos. Um enquanto eu tiro uma soneca para recompor as forças daqui a pouco e outra para ficar aqui na porta do quarto de brinquedos. Tudo bem?
- Sim, senhora. Mas posso saber porque a senhora quer que eu fique de guarda na porta?
- Sabe o brinquedo que vocês me trouxeram ontem?
- Positivo.
- Eu o escolhi para ser meu. Vou transformá-lo em vampiro.
- Você tá falando sério?
- Sim, estou falando sério. Algum problema?
- Não, nenhum. - respondeu Josué, olhando para o lado.
- Então dá licença que eu preciso dormir.
- Ah... Tudo bem! Bom descanso. - respondeu ele, antes de encostar a porta.
No quarto escuro, consegui ter um pouco de paz. E analisei melhor minha situação.
Queria transformar Júlio, de fato. Queria ele para mim. E passeando pelos caminhos da memória, lembrei uma conversa que tive com Eduardo, algumas semanas atrás.
- Aline, o sucesso dessa missão depende única e exclusivamente de você. Não podem haver erros. Não podem haver falhas. Precisamos de Danilo entre os nossos. Tenho certeza de que ele se sairá muito bem. - disse ele, com a voz metódica e fria.
Estávamos em uma convenção onde Danilo faria uma recepção de pessoas importantes da sociedade paulistana.
Eduardo era alto, trajava um terno preto. Na mão direta tinha uma bengala, com uma cabeça de serpente. A unha do indicador batia impaciente em cima do ornamento, produzindo um tilintar inaudível a humanos.
- Fique tranquilo, chefe. Tenho tudo esquematizado em minha mente.
- Ótimo. Traga-me o que quero e deixarei você transmutar mais um mortal. - mencionou, olhando fixamente para Danilo. - Confio em você, Aline! - terminou ele, apoiando as duas mãos na bengala e apreciando o discurso do humano no palanque.
Eu sabia que não podia contrariar as ordens dele. Só que a vontade de transformar Julio e tê-lo só para mim era mais forte do que qualquer outra coisa. E com o humano em minha mente, acabei adormecendo.
***
Algumas horas depois, acordei. Havia dormido praticamente o dia inteiro. E esse momento de descanso me fez adquirir ainda mais convicção de queria aquele homem para mim. Sem delongas, troquei de roupa, preferindo dessa vez somente uma calça jeans preta e uma camisa branca, com um salto pequeno.
Penteei os cabelos e saí do meu quarto. Ao dobrar o corredor, avistei Josué parado em frente ao quarto de brinquedos, mexendo no celular. Pela forma como ele o segurava, parecia que estava jogando algo.
Estava sentado com as pernas abertas e os cotovelos apoiados nos joelhos, segurando o aparelho. Parecia um armário de tão grande.
- To vendo que esse entretenimento virtual está bem interessante, não?
- Desculpe, senhora Aline. - disse ele, guardando o celular no bolso. - Estava entediado.
- Tudo bem, não precisa me explicar. Já deu uma olhada no brinquedo?
- Sim. A Giovana cuidou dele, conforme a senhora recomendou. Os cortes estão estancados, somente.
- Perfeito! Chame ela e fiquem os dois aqui no apartamento. Não quero ter nenhum tipo de interrupção essa noite. Fique com meu celular caso alguém me ligue.
- Pode deixar, senhora Aline. - disse Josué, que se levantou e saiu do corredor em seguida.
Entrei no quarto e o tranquei por dentro.
Júlio estava deitado na mesa, consciente. Conseguiu levantar a cabeça somente um pouco para me ver chegando.
Manteve o mesmo olhar da noite anterior. Tinha fagulhas de ódio, sim! Só que o desejo ardente de me possuir estava ali.
- Veio aqui me zoar de novo? - alfinetou ele.
- Não exatamente. A partir dessa noite, tudo mudará para nós dois.
- O que quer dizer com isso? Por favor, me solte! Não tenho nada a lhe oferecer! Por que está fazendo isso comigo?
- Ssshhh, calma. Logo tudo estará acabado. Olha bem no fundo dos meus olhos e fala pra mim o seu endereço, Júlio.
- To vendo que esse entretenimento virtual está bem interessante, não?
- Desculpe, senhora Aline. - disse ele, guardando o celular no bolso. - Estava entediado.
- Tudo bem, não precisa me explicar. Já deu uma olhada no brinquedo?
- Sim. A Giovana cuidou dele, conforme a senhora recomendou. Os cortes estão estancados, somente.
- Perfeito! Chame ela e fiquem os dois aqui no apartamento. Não quero ter nenhum tipo de interrupção essa noite. Fique com meu celular caso alguém me ligue.
- Pode deixar, senhora Aline. - disse Josué, que se levantou e saiu do corredor em seguida.
Entrei no quarto e o tranquei por dentro.
Júlio estava deitado na mesa, consciente. Conseguiu levantar a cabeça somente um pouco para me ver chegando.
Manteve o mesmo olhar da noite anterior. Tinha fagulhas de ódio, sim! Só que o desejo ardente de me possuir estava ali.
- Veio aqui me zoar de novo? - alfinetou ele.
- Não exatamente. A partir dessa noite, tudo mudará para nós dois.
- O que quer dizer com isso? Por favor, me solte! Não tenho nada a lhe oferecer! Por que está fazendo isso comigo?
- Ssshhh, calma. Logo tudo estará acabado. Olha bem no fundo dos meus olhos e fala pra mim o seu endereço, Júlio.
Sem pensar, o humano soltou a informação de forma automática, como se tivesse esperando para falar aquilo. Mal sabia ele que eu o tinha compelido a falar apenas com o poder da minha mente. A hipnose cessou quando desviei os meus olhos, deixando ele tentando raciocinar o que tinha acontecido.
- ME SOLTE! - gritou Júlio.
Coloquei o dedo na boca dele, num sinal para que ficasse quieto.
Me aproximei bem e fiquei encarando-o por um tempo. Ele não sabia se tinha medo dos meus olhos rubros ou do jeito como minhas presas apareciam para ele enquanto eu sorria.
- ME SOLTE! - gritou Júlio.
Coloquei o dedo na boca dele, num sinal para que ficasse quieto.
Me aproximei bem e fiquei encarando-o por um tempo. Ele não sabia se tinha medo dos meus olhos rubros ou do jeito como minhas presas apareciam para ele enquanto eu sorria.
- Júlio… - chamei.
Ele me olhou de novo e dessa vez fui firme naquele dom obscuro que possuía.
- Eu quero que você se esqueça de absolutamente tudo o que aconteceu aqui dentro. Você não vai se lembrar que eu bebi do seu sangue, nem vai se lembrar do que acontecerá em seguida. Mas, logo menos, vamos nos encontrar novamente. Entendeu?
- Sim, eu entendi! - respondeu Júlio, com os olhos sem expressão, que miravam o vazio.
Acariciei os cabelos dele e o beijei nos lábios. No começo, foi um beijo tímido, entretanto, senti que ele me correspondeu. E partimos para um beijo de verdade, daqueles que me faziam perder o ar quando era apenas uma pessoa normal.
Acariciei os cabelos dele e o beijei nos lábios. No começo, foi um beijo tímido, entretanto, senti que ele me correspondeu. E partimos para um beijo de verdade, daqueles que me faziam perder o ar quando era apenas uma pessoa normal.
- Agora, durma, meu querido. Pois você acordará novamente muito em breve.
E obedecendo mais uma vez, Júlio cerrou os olhos, mas estava num estágio de consciência em que ainda era possível ouvir e responder minhas perguntas.
Olhei cada corte do corpo pensando em qual eu deveria sangrar. Olhei pro da virilha, pescoço, braço, mas não achei nada poético o bastante.
Olhei cada corte do corpo pensando em qual eu deveria sangrar. Olhei pro da virilha, pescoço, braço, mas não achei nada poético o bastante.
- Como tudo que aconteceu entre nós, sua morte será especial. – Sussurrei no ouvido dele, que gemeu como resposta.
Apesar de responder ao transe, apaguei suas memórias pra que não lembrasse de nada que tinha acontecido. No máximo ele poderia sonhar, tendo vislumbres de cenas fragmentadas em sua mente. Resolvi fazer um corte, com a faca abri um corte de quase 5cm no meio do peito dele, o sangue começou a escorrer na hora e eu limpei com a língua. Fiz o mesmo com a faca, em seguida fiz um corte no meu pulso.
O sangue pingou no corpo dele. Nosso sangue é mais grosso que o humano, isso porque nosso coração praticamente não bombeia sangue pelo corpo e ao nos alimentarmos nosso corpo absorve tudo que pode. Nós não eliminamos nada, não urinamos, nem suamos. Somos quase como uma esponja.
Eu posiciono meu pulso acima do corte e deixo as gotas caírem. Alguns segundos depois que meu sangue entra na corrente sanguínea dele, o corpo começa a morrer. Julio começa a ter convulsões. É um sinal do organismo tentando em vão lutar contra o vírus. Não tem jeito, assim que bebi o sangue dele, meu corpo fez o vírus perfeito para o seu corpo e a transformação é inevitável. Dois minutos depois Julio soltou o último suspiro e morreu.
Fiquei olhando para o corpo de Júlio. Mesmo inerte e sem vida, ele continuava perfeito e tinha o mesmo magnetismo.
Desamarrei os nós das mãos e dos pés o arrumei em cima da mesa, com os braços ao lado do corpo.
Fui para a sala falar com Giovana e Josué.
- Olá, dupla de vacilos.
Os dois se levantaram do sofá. Na televisão passava um programa de dois gêmeos que reformavam casas americanas.
- Vamos dar uma volta? Quero levar o brinquedo de volta pra casa dele.
- Você sabe onde ele mora? - quis saber Giovana.
- Eu descobri. Tenho meus meios pra isso! - respondi, piscando o olho para ela. - Josué, pegue o brinquedo, por favor.
Giovana ficou comigo na sala enquanto meu guarda costas voltou para o quarto de brinquedos.
- Não vai me contar mesmo o motivo dessa movimentação toda? Você sabe que pode confiar em mim, Aline. - soltou Giovana, de braços cruzados.
Suspirei fundo antes de responder.
- Depois que tive meu momento com o humano e bebi o sangue dele, fiquei eufórica. Estava embriagada com aquele momento e acabamos transando.
Giovana arregalou os olhos vermelhos.
- Você o queeee...? Bom, mas até aí tudo bem. Agora vamos direto ao problema.
- Bem...eu me apaixonei por ele. E sinto que fui correspondida.
Nisso, Josué trouxe o corpo de Júlio nos braços.
Giovana olhou pro brinquedo e travou. Em seguida, olhou para mim.
- Você o transformou!? Eu sinto que ele não é mais humano.
- Sim. Pode parecer fútil para vocês, me olhando dessa maneira. A verdade é que faz muito tempo que não me sentia desse jeito. É como se eu estivesse viva de novo! - disse.
E era verdade. Estava sendo sincera com os dois.
Saímos do meu apartamento em silêncio. Seguimos sentido garagem do prédio e entramos no meu carro. Josué assumiu a direção e Giovana foi no banco do passageiro.
Deitamos Júlio no banco de trás, com a cabeça apoiada no meu colo. Estava com as chaves do prédio dele, então quando chegamos foi fácil entrar. Me lembro que quando entramos, cruzamos com algum morador do prédio, que nos encarou de forma estranha.
- Deu PT, coitado dele! - disse Giovana para o homem, dando uma risadinha debochada.
- Boa noite! - respondeu o sujeito, apenas, acenando como se na verdade quisesse dizer "vai te catar".
Subimos até o sétimo andar, onde ficava o apartamento de Júlio. Abrimos a porta e, com bastante cuidado, o colocamos na cama.
Com a mesma quietude que entramos, saímos do prédio. Ainda bem que somos tão sutis quanto os felinos para caminhar sem fazer barulho.
Agora era só uma questão de tempo.
Como fui a última a sair, pude perceber que, antes de fechar a porta, vi o polegar de Júlio tendo o primeiro espasmo nervoso.
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