quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Capítulo 10

Pela manhã me levanto para ir para o escritório. Julio já havia ido embora. Depois de passar mal de madrugada, ele se desculpou e foi para casa. Disse que preferia não incomodar, eu não insisti, não estava com paciência para cuidar de ninguém. Ele já estava alimentado, portanto aguentaria mais um dia sem comer.
O dia está nublado, o que facilita minha locomoção, detesto dias ensolarados, mas infelizmente os vivos insistem em funcionar melhor durante o dia. Chego no escritório depois das 10h, Josué e Giovanna estão lá, servos fieis trabalhando como sempre.
O dia passa sem turbulências, algumas reuniões e conferências por telefone para decidir sobre a distribuição do composto, aquisições de empresas e negócios pertinentes a nossa organização. O Chefe se afastou de questões burocráticas e alguém precisava assumir. Sobrou para mim, mais uma função acumulada. Isso dá a devida visibilidade na organização, mas também tem o viés da coisa, eu fico fora da ação e passo a tomar decisões corporativas. Sei que com o tempo precisarei me afastar, mas nada supera as ações em campo. A caçada é sempre deliciosa. A fuga e negação da presa, a captura, o sangue e quando posso, a transformação de novos indivíduos.
Infelizmente o Chefe criou a regra de só transformar alguém com seu aval, não concordo, mas não sou louca de questionar.
Fiz algumas investigações por conta e o que descobri sobre a história dos vampiros aqui me deixou perplexa. Pelo visto alguns vampiros com mais de 100 anos abusaram do poder matando e transformando pessoas a seu bel prazer, com isso, nossa sociedade foi exposta. Isso aconteceu há muito tempo antes da minha transformação. Por causa desses indivíduos, foi realizada uma verdadeira chacina interna. Muitos vampiros antigos e novatos descontrolados foram mortos.
Houve um conselho mundial formado pelos “Irmãos de Sangue” e nesse conselho o Chefe foi nomeado o cabeça da organização no país. Agora somente com o aval dele novos vampiros podem ser criados, e pelo que sei além de mim menos de 10 vampiros tem idade o bastante para conseguir isso.
Quando assumiu a liderança o Chefe fez uma avaliação rigorosa de toda a estrutura e hierarquia estabelecida. Muitos foram destituídos de seus cargos, realocados para outros países ou mesmo mortos. Há quem diga que o próprio Chefe matou quem ousou se opor a sua nova ordem. Eu tive a sorte de não precisar viver essa época e tive mais sorte ainda de ser transformada pelo próprio Chefe, que me acolheu e me ensinou.
Agora sou seu braço direito, mas sei que nem tudo são flores. Vou pagar caro pela minha insubordinação, se não for com a vida será com muito sofrimento.
Olho no relógio e já são 16h então vou até minha sala e fecho a porta, preciso ficar um pouco sozinha. Abro meu notebook e checo meus e-mails. Nenhum comunicado do Chefe. “Estou preocupada, ele está quieto demais.”
Uma sensação de impotência sobe pela minha espinha só de pensar no que vai acontecer comigo quando ele descobrir que o idiota do Danilo morreu. Na verdade, eu tenho certeza que ele já sabe, afinal saiu em todos os jornais. Se ele não viu as notícias, com certeza algum idiota já deu com a língua nos dentes para ele tentando ganhar pontos em cima do meu erro.
Sou tirada dos meus pensamentos quando a porta da sala é aberta e dois indivíduos de ternos pretos entram e sentam nas cadeiras na frente da minha mesa. Não falam nada, mas sei a mando de quem estão aqui.
- E então, qual o recado do Chefe?
O da esquerda abre um sorriso:
- É Aline, você não é tão burra quanto parece. Mas devo dizer que dessa vez você se superou. Matar um alvo escolhido pessoalmente por ele e não comunicar? Ou você é louca ou acha que é muito importante.
Nem um nem outro, eu tive medo de falar com ele, mas não posso transparecer nada para esses idiotas.
- O Chefe não está nada feliz com você. – o indivíduo fala e sorri, dá para ver os caninos um pouco maiores que os normais, eu não tinha dúvida que eram vampiros, mas o tamanho dos caninos entrega a idade. Esse cara tem mais de cem anos.
O outro não fala nada, eu também não. Estou esperando o próximo movimento. Ele coloca a mão dentro do paletó e na mesma hora eu fico totalmente alerta. “Esse cara teria que ser idiota demais para me atacar aqui.” Mas ao contrário do que eu penso, ele tira um papel do bolso e coloca na minha mesa. É uma foto do Julio.
- Então Aline, quem é o rapaz? – finalmente ele fala, sua voz é fria como gelo.
- Não faço ideia. Por que você não me diz?
- Se prefere assim. Seu nome é Julio, mora em uma rua no bairro de perdizes, aliás bem próximo ao seu apartamento. Mas o que mais nos intriga é por que você o transformou? Quer explicar pra nós ou prefere direto pro Chefe?
Eu fico sem palavras, preciso pensar.
- Isso diz respeito somente a mim e ao Chefe, não tenho nenhum motivo para falar com idiotas como vocês.
- Acho mais seguro falar conosco e se for boazinha, talvez possamos matá-lo rápido e sem dor. Ah, e nem adianta tentar escondê-lo. Temos olhos em todos os lugares, inclusive na sala ao lado.
Eu fico quieta por alguns segundos, meus pensamentos voam tentando absorver a última frase “Temos olhos em todos os lugares...inclusive na sala ao lado...quem seria louco ou idiota o bastante?”
- Saiam. – Eu digo isso ficando em pé e apoiando as mãos na mesa, transpareço toda minha fúria naquele momento. Eles vacilam. Não estavam preparados para isso e muito menos para mim. Olham um para o outro e decidem pela saída mais fácil e segura. Se levantam e saem da sala, quando estão passando pela porta um deles se vira:
- Só pra te avisar, já que você não fez o trabalho e ainda transformou uma pessoa sem autorização, o chefe quer uma prova de sua fidelidade. Entregue o rapaz ou mate-o e talvez você fique viva. – dito isso eles saem batendo a porta.
Eu caio sentada na cadeira, o ódio queimando meu corpo. Minhas unhas perfuram o couro do braço da cadeira. Alguém vai pagar por essa traição:
- Josué! – Eu grito.
Alguns segundos depois ele entra na sala, cabeça baixa, cheirando a medo. “Foi ele!”
- Como teve coragem de me trair? Sem mim você não é ninguém. – Ele continua de cabeça baixa – Olhe para mim quando eu falo.
Josué levanta a cabeça e me encara, suas mãos tremem. Ele está apavorado. O filho da puta abre a boca tentando dizer algo, mas não sai som. Eu me levanto da cadeira dou a volta na mesa e paro bem na frente dele. Em um movimento rápido eu pego um abridor de cartas na mesa atrás de mim e enfio no peito dele até o coração.
Os olhos do Josué estão arregalados, a boca está aberta e um filete de sangue escorre de sua boca. Eu puxo o cabelo dele para traz e o sangue escorre pelo queixo caindo na roupa. “Esse babaca não vai sangrar no meu carpete”.
- Nunca...mais...me...traia – a cada palavra eu puxava o abridor de cartas para o lado abrindo mais o corte. – Para sua sorte o abridor de cartas não é de prata e eu preciso de você, caso contrário você já estaria morto.
Eu puxo a lâmina e solto Josué. Ele cai sentado na cadeira com a mão no peito.
- Se limpe e suma da minha frente, você perdeu totalmente minha confiança. Vai precisar de muito para eu voltar a olhar para você.
Josué se levanta e sai cambaleando da sala.

Preciso entregar Julio para o Chefe ou estou morta.

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