Pela
manhã me levanto para ir para o escritório. Julio já havia ido embora. Depois
de passar mal de madrugada, ele se desculpou e foi para casa. Disse que
preferia não incomodar, eu não insisti, não estava com paciência para cuidar de
ninguém. Ele já estava alimentado, portanto aguentaria mais um dia sem comer.
O dia
está nublado, o que facilita minha locomoção, detesto dias ensolarados, mas
infelizmente os vivos insistem em funcionar melhor durante o dia. Chego no
escritório depois das 10h, Josué e Giovanna estão lá, servos fieis trabalhando
como sempre.
O dia
passa sem turbulências, algumas reuniões e conferências por telefone para
decidir sobre a distribuição do composto, aquisições de empresas e negócios
pertinentes a nossa organização. O Chefe se afastou de questões burocráticas e
alguém precisava assumir. Sobrou para mim, mais uma função acumulada. Isso dá a
devida visibilidade na organização, mas também tem o viés da coisa, eu fico
fora da ação e passo a tomar decisões corporativas. Sei que com o tempo
precisarei me afastar, mas nada supera as ações em campo. A caçada é sempre
deliciosa. A fuga e negação da presa, a captura, o sangue e quando posso, a
transformação de novos indivíduos.
Infelizmente
o Chefe criou a regra de só transformar alguém com seu aval, não concordo, mas
não sou louca de questionar.
Fiz
algumas investigações por conta e o que descobri sobre a história dos vampiros
aqui me deixou perplexa. Pelo visto alguns vampiros com mais de 100 anos
abusaram do poder matando e transformando pessoas a seu bel prazer, com isso,
nossa sociedade foi exposta. Isso aconteceu há muito tempo antes da minha
transformação. Por causa desses indivíduos, foi realizada uma verdadeira
chacina interna. Muitos vampiros antigos e novatos descontrolados foram mortos.
Houve um
conselho mundial formado pelos “Irmãos de Sangue” e nesse conselho o Chefe foi
nomeado o cabeça da organização no país. Agora somente com o aval dele novos
vampiros podem ser criados, e pelo que sei além de mim menos de 10 vampiros tem
idade o bastante para conseguir isso.
Quando
assumiu a liderança o Chefe fez uma avaliação rigorosa de toda a estrutura e
hierarquia estabelecida. Muitos foram destituídos de seus cargos, realocados
para outros países ou mesmo mortos. Há quem diga que o próprio Chefe matou quem
ousou se opor a sua nova ordem. Eu tive a sorte de não precisar viver essa
época e tive mais sorte ainda de ser transformada pelo próprio Chefe, que me
acolheu e me ensinou.
Agora sou
seu braço direito, mas sei que nem tudo são flores. Vou pagar caro pela minha
insubordinação, se não for com a vida será com muito sofrimento.
Olho no
relógio e já são 16h então vou até minha sala e fecho a porta, preciso ficar um
pouco sozinha. Abro meu notebook e checo meus e-mails. Nenhum comunicado do
Chefe. “Estou preocupada, ele está quieto demais.”
Uma
sensação de impotência sobe pela minha espinha só de pensar no que vai
acontecer comigo quando ele descobrir que o idiota do Danilo morreu. Na
verdade, eu tenho certeza que ele já sabe, afinal saiu em todos os jornais. Se
ele não viu as notícias, com certeza algum idiota já deu com a língua nos
dentes para ele tentando ganhar pontos em cima do meu erro.
Sou
tirada dos meus pensamentos quando a porta da sala é aberta e dois indivíduos
de ternos pretos entram e sentam nas cadeiras na frente da minha mesa. Não
falam nada, mas sei a mando de quem estão aqui.
- E
então, qual o recado do Chefe?
O da
esquerda abre um sorriso:
- É
Aline, você não é tão burra quanto parece. Mas devo dizer que dessa vez você se
superou. Matar um alvo escolhido pessoalmente por ele e não comunicar? Ou você
é louca ou acha que é muito importante.
Nem um
nem outro, eu tive medo de falar com ele, mas não posso transparecer nada para
esses idiotas.
- O Chefe
não está nada feliz com você. – o indivíduo fala e sorri, dá para ver os
caninos um pouco maiores que os normais, eu não tinha dúvida que eram vampiros,
mas o tamanho dos caninos entrega a idade. Esse cara tem mais de cem anos.
O outro
não fala nada, eu também não. Estou esperando o próximo movimento. Ele coloca a
mão dentro do paletó e na mesma hora eu fico totalmente alerta. “Esse cara
teria que ser idiota demais para me atacar aqui.” Mas ao contrário do que eu
penso, ele tira um papel do bolso e coloca na minha mesa. É uma foto do Julio.
- Então
Aline, quem é o rapaz? – finalmente ele fala, sua voz é fria como gelo.
- Não
faço ideia. Por que você não me diz?
- Se
prefere assim. Seu nome é Julio, mora em uma rua no bairro de perdizes, aliás
bem próximo ao seu apartamento. Mas o que mais nos intriga é por que você o
transformou? Quer explicar pra nós ou prefere direto pro Chefe?
Eu fico
sem palavras, preciso pensar.
- Isso
diz respeito somente a mim e ao Chefe, não tenho nenhum motivo para falar com
idiotas como vocês.
- Acho
mais seguro falar conosco e se for boazinha, talvez possamos matá-lo rápido e
sem dor. Ah, e nem adianta tentar escondê-lo. Temos olhos em todos os lugares,
inclusive na sala ao lado.
Eu fico
quieta por alguns segundos, meus pensamentos voam tentando absorver a última
frase “Temos olhos em todos os lugares...inclusive na sala ao lado...quem seria
louco ou idiota o bastante?”
- Saiam.
– Eu digo isso ficando em pé e apoiando as mãos na mesa, transpareço toda minha
fúria naquele momento. Eles vacilam. Não estavam preparados para isso e muito
menos para mim. Olham um para o outro e decidem pela saída mais fácil e segura.
Se levantam e saem da sala, quando estão passando pela porta um deles se vira:
- Só pra
te avisar, já que você não fez o trabalho e ainda transformou uma pessoa sem
autorização, o chefe quer uma prova de sua fidelidade. Entregue o rapaz ou
mate-o e talvez você fique viva. – dito isso eles
saem batendo a porta.
Eu caio
sentada na cadeira, o ódio queimando meu corpo. Minhas unhas perfuram o couro
do braço da cadeira. Alguém vai pagar por essa traição:
- Josué!
– Eu grito.
Alguns
segundos depois ele entra na sala, cabeça baixa, cheirando a medo. “Foi ele!”
- Como
teve coragem de me trair? Sem mim você não é ninguém. – Ele continua de cabeça
baixa – Olhe para mim quando eu falo.
Josué
levanta a cabeça e me encara, suas mãos tremem. Ele está apavorado. O filho da
puta abre a boca tentando dizer algo, mas não sai som. Eu me levanto da cadeira
dou a volta na mesa e paro bem na frente dele. Em um movimento rápido eu pego
um abridor de cartas na mesa atrás de mim e enfio no peito dele até o coração.
Os olhos
do Josué estão arregalados, a boca está aberta e um filete de sangue escorre de
sua boca. Eu puxo o cabelo dele para traz e o sangue escorre pelo queixo caindo
na roupa. “Esse babaca não vai sangrar no meu carpete”.
-
Nunca...mais...me...traia – a cada palavra eu puxava o abridor de cartas para o
lado abrindo mais o corte. – Para sua sorte o abridor de cartas não é de prata
e eu preciso de você, caso contrário você já estaria morto.
Eu puxo a
lâmina e solto Josué. Ele cai sentado na cadeira com a mão no peito.
- Se
limpe e suma da minha frente, você perdeu totalmente minha confiança. Vai
precisar de muito para eu voltar a olhar para você.
Josué se
levanta e sai cambaleando da sala.
Preciso
entregar Julio para o Chefe ou estou morta.
Nenhum comentário:
Postar um comentário