Fico sentada durante algum tempo na cadeira sem saber o
que fazer. Fico pensando em como vou entregar o Julio ao mestre e no que
possivelmente vai acontecer com ele. Nenhum pensamento era leve ou pelo menos
reconfortante. Todas as possibilidades que passam pela minha mente terminam com
uma morte horrível para ele e algo pior para mim.
Não dá
mais para pensar, preciso fazer alguma coisa. “Eles sabem onde ele mora, podem
estar com ele agora.”.
Pego meu
celular na mesa e disco:
- Alô. –
Julio atende no primeiro toque. Isso é bom.
- Oi Ju,
liguei para ver se você melhorou, você saiu mal lá de casa e depois não me
ligou, espero que esteja tudo bem...
- Oi
Line...desculpa, depois do mico na sua casa fiquei meio sem graça de te ligar.
- Que
besteira, você acha que eu nunca passei mal na vida? – hora de fazer o jeito de
namorada perfeita - Além disso o Sr. combinou de me ligar assim que acordasse,
aposto que não comeu e está aí morrendo. Pelo visto vou ter que cuidar de você
de novo... – “preciso descobrir onde ele está”.
- É que
eu não queria te incomodar...mas olha, fica tranquila que vou me cuidar
inclusive tô indo ao médico pra fazer uns exames e – “MERDA!!!”
- Médico,
qual médico? Vou com você, me sinto responsável pelo seu mal-estar. – Puta que
pariu, só me faltava essa. Se ele for em um médico vão descobrir que ele é um
não-vivo. Vampiros não tem pulsação nem pressão sanguínea, exceto quando se
alimentam.
- Não
precisa não, relaxa. – Ele não pode ir sozinho ao hospital de jeito nenhum
- Eu não
estou pedindo, estou te avisando que vou te encontrar lá.
- OK,
estou indo no São Camilo da Pompéia. – Pelo menos é perto.
- Beleza,
te encontro lá daqui a pouco.
Preciso
ser rápida. Me levanto pego a chave do carro, abro o frigobar e pego um
squeeze. Em seguida saio correndo da sala, passo pela Giovanna que está falando
com Josué. Ele ainda sangra, “Ótimo, espero que sofra muito”.
-
Giovanna, preciso de você agora. Larga esse traste e vem comigo.
Giovanna
obedece sem pestanejar, pega a bolsa e saímos do escritório.
- Você
vai me levar até o São Camilo da Pompéia. O Julio está indo para lá, se ele
passar pelo médico antes de chegarmos vai dar merda. Liga para o nosso contato
do hospital e manda ele ficar de olho. Não podemos ter furos.
Eu dirijo
rápido pela avenida enquanto Giovanna faz a ligação. As instruções são claras,
Julio não pode ser atendido até eu chegar ao hospital.
Paro o
carro em frente ao ponto de ônibus da igreja na pompeia. Giovanna sai com o
carro e eu desço a passos rápidos.
Julio
está na frente do pronto socorro olhando para os lados me procurando.
- Oi,
desculpa a demora, estava trânsito. – finjo a preocupação.
- Tudo
bem, você nem precisava ter vindo, quer dizer, não é sua obrigação, a gente se
conhece há tão pouco tempo para você ficar tendo trabalho assim e – eu dou um
beijo nele... tem horas que ele fala demais.
- Hum, estava
com saudade sabia? Você pelo menos comeu alguma coisa? – Hora de dar um pouco
de vida para esse corpo.
Ele faz
um não com a cabeça e eu pego o squeeze na mochila
- Bebe,
nem pergunta o que é por que você não vai querer saber.
Julio
bebe um grande gole e de repente se dobra gemendo de dor. Como estamos na porta
do pronto socorro o segurança chama um enfermeiro e vem com uma cadeira de
rodas para acudir o rapaz com dor. Colocamos Julio nela e levamos para dentro
do hospital. O enfermeiro me faz algumas perguntas idiotas sobre o que ele tem.
Eu invento que ele está sem dormir e não comeu e o cara parece acreditar.
Em seguida
ele vem com o aparelho para aferir a pressão. Será que ele bebeu o bastante para
o seu corpo reagir? Assim que o enfermeiro coloca a braçadeira Julio abre os
olhos. Eu estou fora do cubículo, mas no seu campo de visão. Ele me olha e olha
para o squeeze que está no seu colo, com os lábios eu digo “Pode matar”. Ele
entende e bebe com o enfermeiro resmungando para ele ficar quieto.
Os
segundos passam devagar, então o enfermeiro coloca a mão dentro do cubículo,
fora do meu campo de visão e Julio olha para a mão dele, faz uma cara de
espanto. “Fodeu”.
Quando
ele se levanta e sai eu me acalmo. Julio parece estar furioso, levanta o braço
e me mostra uma pulseira verde. Olho para a parede e leio um cartaz que explica
como funcionam as cores. Verde = não urgente. Andamos até a sala de espera e
nos sentamos esperando para ser atendidos.
Ainda bem
que estamos no Brasil. O atendimento é extremamente demorado, além disso,
ajudado pelo nosso contato no hospital, a ficha do Julio é passada para trás
diversas vezes, se depender do nosso contato ele nunca será atendido. Quase uma
hora depois eu me levanto fingindo estar extremamente irritada. Ando até o galpão
onde estão os atendentes:
- E
então, tudo certo?
- Sim
Senhora Aline, o rapaz não será atendido. Agora precisamos apenas convencê-lo a
desistir.
- Quanto
a isso deixe comigo.
Eu volto
até Julio resmungando sobre o absurdo na demora do atendimento. Como todo
homem, o rapaz também quer evitar uma namorada irritada.
- Vamos
embora, eu já tô melhor e o próprio enfermeiro falou que minha pressão tava
legal. Deve ser só fraqueza, prometo que vou me alimentar. – que bonitinho,
querendo parecer forte.
- Tenho
certeza disso, já que hoje você vai jantar comigo!
Resolvemos
testar a força dele andando. Eu sei que com o que bebeu no Squeeze não terá
problemas por pelo menos algumas horas, mas preciso ter certeza que está tudo
bem, então descemos a avenida a pé.
Julio
fala amenidades, mudando o foco da sua fraqueza. Melhor deixar assim. Quando
passamos em frente ao Shopping Bourbon eu o puxo para dentro do local dizendo
que vou comprar alguma coisa para o jantar. Mando ele ficar do lado de fora do
mercado no Shopping e entro. Pego uma garrafa de vinho e uma peça de carne e
vou para o caixa, olho para fora e Julio não está lá. “Ótimo”. Vou até a
Riachuelo ao lado do mercado e compro uma coisinha para deixar a noite especial.
Em seguida mando uma mensagem para ele pedindo que me encontre na porta da
loja.
Assim que
saio ele olha para mim e eu apenas digo
– Coisa
de mulher – ele sorri e saímos do Shopping. Dessa vez vamos para a casa dele, tenho
certeza que estão vigiando meu apartamento e o dele, não vão fazer nada
enquanto estivermos juntos. Entramos no apartamento dele e finjo surpresa. Olho
as fotos no corredor, “Cada foto brega”. Vou até a sala com ele e olho a
estante, móveis, finjo interesse pelo local. Sou boa nisso. Ele fica mudo
acompanhando meus movimentos.
- Achei
que sua casa fosse mais bagunçada... – resolvo quebrar o silêncio.
- Pois é,
eu sou meio que super organizado – até parece.
- E onde
estão seus pais e irmãos?
- Bom dos
meus irmãos só eu moro em São Paulo, os outros moram fora do país, quanto aos
meus pais, foram mortos há 6 meses em uma tentativa de assalto.
- Desculpa, eu não queria te deixar triste.
Eu o
abraço forte, um abraço sincero, sei como é perder pessoas que amamos.
- Bom,
deixa eu te animar um pouco, a cozinha fica ali né? Liga a TV, se distrai
enquanto eu preparo as coisas aqui.
Saio da
sala e ouço ele ligando a TV, logo ele está jogando vídeo game. Um daqueles
jogos idiotas que as crianças gostam. Eu só atraio homens estranhos mesmo.
Abro a
garrafa de vinho e despejo dois envelopes do composto em pó na garrafa. O gosto
da bebida vai ficar pouco alterado e ele vai beber feliz. Hora de esquentar as
coisas, então pego a sacola com o que comprei na loja e me apronto.
- Ju, me
ajuda aqui!!! – Ele vem rápido até a cozinha, eu estou propositalmente de
costas com uma das pernas dobradas como se estivesse tentando subir na pia para
alcançar alguma coisa. Julio fica parado na porta da cozinha, estou cinta liga
e corpete pretos e cabelo solto.
Vendo que
ele não entra na cozinha eu me viro, apoio as mãos na pia e digo:
- Me
ajuda a pegar as taças? Vamos tomar um vinho.
Julio
sorri e anda até mim. Seus olhos percorrem todo meu corpo e sua virilha deixa
claro o quanto ele gostou.
Ele
levanta o braço para pegar as taças, eu não saio da frente, fico na ponta dos
pés e digo no ouvido dele “Gostou da surpresa?” Ele abaixa o braço e me beija.
Um beijo forte com tesão. Suas mãos passam pelas minhas costas e apertam minha
bunda. Sou levantada e colocada sentada na pia, sua boca continua grudada na
minha em um beijo extremamente quente. Transamos com toda nossa vontade na pia
da cozinha. Depois, vamos para o quarto para o segundo tempo. Depois do sexo eu
deito no peito dele aproveitando o cheiro daquele homem.
- Eu
queria vinho. – eu digo isso com a melhor voz de puta que consigo fazer. Na
mesma hora ele levanta e sai do quarto. Alguns minutos depois ele está de
volta, ainda pelado senta na cama e coloca vinho na taça – Bebe comigo – eu
digo, assim ele não coloca na outra taça. Pego a bebida e dou um gole, Julio
encosta na cabeceira da cama. Eu passo a taça para ele que bebe quase tudo, me
devolvendo em seguida. Eu molho os lábios e deixo cair bebida no meu corpo, a
bebida escorre pelo meio dos meus seios e os olhos dele acompanham o liquido
descer pelo meu corpo. Julio entendeu o recado, vai ter que beber tudinho.
Acordo
assustada com uma sensação ruim no peito “Eu dormi?!?”. São 06h da manhã e
Julio acorda com meu movimento brusco. Invento uma desculpa dizendo que preciso
ir para casa e em seguida ir trabalhar. Prontamente ele se oferece para me
levar. Resolvo aceitar a gentileza, isso me pouparia o trabalho de ficar de
olho nele.
Tomamos
banho juntos, dessa vez só um banho mesmo, e ele me leva para casa. Chegando lá
peço que me espere no carro dizendo que não vou demorar. Subo rapidamente e dou
uma olhada em todos os cômodos. Nada fora do lugar, tudo aparentemente em
ordem. Troco de roupas e desço.
Julio me
leva ao trabalho, fuço no porta luvas e dentre os cds acho um do Raul Seixas. “Adoro
Raul”. Coloco para tocar e canto o mais alto que posso revivendo todos os shows
que vi. Raul era ainda melhor ao vivo. Peço para ele me deixar na Fradique
Coutinho, fingindo que meu trabalho é lá. “Melhor ele não saber o endereço
correto”, dou um beijo e desço do carro. Em seguida volto:
- Como o
Sr. não tomou café, pelo menos toma isso, vai te fazer bem. Tenha um bom dia.
Te adoro. – o “Te adoro” sai sem querer.
- Também
te adoro. – ele responde e eu sorrio...de verdade.
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