sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Capítulo 11

Fico sentada durante algum tempo na cadeira sem saber o que fazer. Fico pensando em como vou entregar o Julio ao mestre e no que possivelmente vai acontecer com ele. Nenhum pensamento era leve ou pelo menos reconfortante. Todas as possibilidades que passam pela minha mente terminam com uma morte horrível para ele e algo pior para mim.
Não dá mais para pensar, preciso fazer alguma coisa. “Eles sabem onde ele mora, podem estar com ele agora.”.
Pego meu celular na mesa e disco:
- Alô. – Julio atende no primeiro toque. Isso é bom.
- Oi Ju, liguei para ver se você melhorou, você saiu mal lá de casa e depois não me ligou, espero que esteja tudo bem...
- Oi Line...desculpa, depois do mico na sua casa fiquei meio sem graça de te ligar.
- Que besteira, você acha que eu nunca passei mal na vida? – hora de fazer o jeito de namorada perfeita - Além disso o Sr. combinou de me ligar assim que acordasse, aposto que não comeu e está aí morrendo. Pelo visto vou ter que cuidar de você de novo... – “preciso descobrir onde ele está”.
- É que eu não queria te incomodar...mas olha, fica tranquila que vou me cuidar inclusive tô indo ao médico pra fazer uns exames e – “MERDA!!!”
- Médico, qual médico? Vou com você, me sinto responsável pelo seu mal-estar. – Puta que pariu, só me faltava essa. Se ele for em um médico vão descobrir que ele é um não-vivo. Vampiros não tem pulsação nem pressão sanguínea, exceto quando se alimentam.
- Não precisa não, relaxa. – Ele não pode ir sozinho ao hospital de jeito nenhum
- Eu não estou pedindo, estou te avisando que vou te encontrar lá.
- OK, estou indo no São Camilo da Pompéia. – Pelo menos é perto.
- Beleza, te encontro lá daqui a pouco.
Preciso ser rápida. Me levanto pego a chave do carro, abro o frigobar e pego um squeeze. Em seguida saio correndo da sala, passo pela Giovanna que está falando com Josué. Ele ainda sangra, “Ótimo, espero que sofra muito”.
- Giovanna, preciso de você agora. Larga esse traste e vem comigo.
Giovanna obedece sem pestanejar, pega a bolsa e saímos do escritório.
- Você vai me levar até o São Camilo da Pompéia. O Julio está indo para lá, se ele passar pelo médico antes de chegarmos vai dar merda. Liga para o nosso contato do hospital e manda ele ficar de olho. Não podemos ter furos.
Eu dirijo rápido pela avenida enquanto Giovanna faz a ligação. As instruções são claras, Julio não pode ser atendido até eu chegar ao hospital.
Paro o carro em frente ao ponto de ônibus da igreja na pompeia. Giovanna sai com o carro e eu desço a passos rápidos.
Julio está na frente do pronto socorro olhando para os lados me procurando.
- Oi, desculpa a demora, estava trânsito. – finjo a preocupação.
- Tudo bem, você nem precisava ter vindo, quer dizer, não é sua obrigação, a gente se conhece há tão pouco tempo para você ficar tendo trabalho assim e – eu dou um beijo nele... tem horas que ele fala demais.
- Hum, estava com saudade sabia? Você pelo menos comeu alguma coisa? – Hora de dar um pouco de vida para esse corpo.
Ele faz um não com a cabeça e eu pego o squeeze na mochila
- Bebe, nem pergunta o que é por que você não vai querer saber.
Julio bebe um grande gole e de repente se dobra gemendo de dor. Como estamos na porta do pronto socorro o segurança chama um enfermeiro e vem com uma cadeira de rodas para acudir o rapaz com dor. Colocamos Julio nela e levamos para dentro do hospital. O enfermeiro me faz algumas perguntas idiotas sobre o que ele tem. Eu invento que ele está sem dormir e não comeu e o cara parece acreditar.
Em seguida ele vem com o aparelho para aferir a pressão. Será que ele bebeu o bastante para o seu corpo reagir? Assim que o enfermeiro coloca a braçadeira Julio abre os olhos. Eu estou fora do cubículo, mas no seu campo de visão. Ele me olha e olha para o squeeze que está no seu colo, com os lábios eu digo “Pode matar”. Ele entende e bebe com o enfermeiro resmungando para ele ficar quieto.
Os segundos passam devagar, então o enfermeiro coloca a mão dentro do cubículo, fora do meu campo de visão e Julio olha para a mão dele, faz uma cara de espanto. “Fodeu”.
Quando ele se levanta e sai eu me acalmo. Julio parece estar furioso, levanta o braço e me mostra uma pulseira verde. Olho para a parede e leio um cartaz que explica como funcionam as cores. Verde = não urgente. Andamos até a sala de espera e nos sentamos esperando para ser atendidos.
Ainda bem que estamos no Brasil. O atendimento é extremamente demorado, além disso, ajudado pelo nosso contato no hospital, a ficha do Julio é passada para trás diversas vezes, se depender do nosso contato ele nunca será atendido. Quase uma hora depois eu me levanto fingindo estar extremamente irritada. Ando até o galpão onde estão os atendentes:
- E então, tudo certo?
- Sim Senhora Aline, o rapaz não será atendido. Agora precisamos apenas convencê-lo a desistir.
- Quanto a isso deixe comigo.
Eu volto até Julio resmungando sobre o absurdo na demora do atendimento. Como todo homem, o rapaz também quer evitar uma namorada irritada.
- Vamos embora, eu já tô melhor e o próprio enfermeiro falou que minha pressão tava legal. Deve ser só fraqueza, prometo que vou me alimentar. – que bonitinho, querendo parecer forte.
- Tenho certeza disso, já que hoje você vai jantar comigo!
Resolvemos testar a força dele andando. Eu sei que com o que bebeu no Squeeze não terá problemas por pelo menos algumas horas, mas preciso ter certeza que está tudo bem, então descemos a avenida a pé.
Julio fala amenidades, mudando o foco da sua fraqueza. Melhor deixar assim. Quando passamos em frente ao Shopping Bourbon eu o puxo para dentro do local dizendo que vou comprar alguma coisa para o jantar. Mando ele ficar do lado de fora do mercado no Shopping e entro. Pego uma garrafa de vinho e uma peça de carne e vou para o caixa, olho para fora e Julio não está lá. “Ótimo”. Vou até a Riachuelo ao lado do mercado e compro uma coisinha para deixar a noite especial. Em seguida mando uma mensagem para ele pedindo que me encontre na porta da loja.
Assim que saio ele olha para mim e eu apenas digo
– Coisa de mulher – ele sorri e saímos do Shopping. Dessa vez vamos para a casa dele, tenho certeza que estão vigiando meu apartamento e o dele, não vão fazer nada enquanto estivermos juntos. Entramos no apartamento dele e finjo surpresa. Olho as fotos no corredor, “Cada foto brega”. Vou até a sala com ele e olho a estante, móveis, finjo interesse pelo local. Sou boa nisso. Ele fica mudo acompanhando meus movimentos.
- Achei que sua casa fosse mais bagunçada... – resolvo quebrar o silêncio.
- Pois é, eu sou meio que super organizado – até parece.
- E onde estão seus pais e irmãos?
- Bom dos meus irmãos só eu moro em São Paulo, os outros moram fora do país, quanto aos meus pais, foram mortos há 6 meses em uma tentativa de assalto.
 - Desculpa, eu não queria te deixar triste.
Eu o abraço forte, um abraço sincero, sei como é perder pessoas que amamos.
- Bom, deixa eu te animar um pouco, a cozinha fica ali né? Liga a TV, se distrai enquanto eu preparo as coisas aqui.
Saio da sala e ouço ele ligando a TV, logo ele está jogando vídeo game. Um daqueles jogos idiotas que as crianças gostam. Eu só atraio homens estranhos mesmo.
Abro a garrafa de vinho e despejo dois envelopes do composto em pó na garrafa. O gosto da bebida vai ficar pouco alterado e ele vai beber feliz. Hora de esquentar as coisas, então pego a sacola com o que comprei na loja e me apronto.
- Ju, me ajuda aqui!!! – Ele vem rápido até a cozinha, eu estou propositalmente de costas com uma das pernas dobradas como se estivesse tentando subir na pia para alcançar alguma coisa. Julio fica parado na porta da cozinha, estou cinta liga e corpete pretos e cabelo solto.
Vendo que ele não entra na cozinha eu me viro, apoio as mãos na pia e digo:
- Me ajuda a pegar as taças? Vamos tomar um vinho.
Julio sorri e anda até mim. Seus olhos percorrem todo meu corpo e sua virilha deixa claro o quanto ele gostou.
Ele levanta o braço para pegar as taças, eu não saio da frente, fico na ponta dos pés e digo no ouvido dele “Gostou da surpresa?” Ele abaixa o braço e me beija. Um beijo forte com tesão. Suas mãos passam pelas minhas costas e apertam minha bunda. Sou levantada e colocada sentada na pia, sua boca continua grudada na minha em um beijo extremamente quente. Transamos com toda nossa vontade na pia da cozinha. Depois, vamos para o quarto para o segundo tempo. Depois do sexo eu deito no peito dele aproveitando o cheiro daquele homem.
- Eu queria vinho. – eu digo isso com a melhor voz de puta que consigo fazer. Na mesma hora ele levanta e sai do quarto. Alguns minutos depois ele está de volta, ainda pelado senta na cama e coloca vinho na taça – Bebe comigo – eu digo, assim ele não coloca na outra taça. Pego a bebida e dou um gole, Julio encosta na cabeceira da cama. Eu passo a taça para ele que bebe quase tudo, me devolvendo em seguida. Eu molho os lábios e deixo cair bebida no meu corpo, a bebida escorre pelo meio dos meus seios e os olhos dele acompanham o liquido descer pelo meu corpo. Julio entendeu o recado, vai ter que beber tudinho.
Acordo assustada com uma sensação ruim no peito “Eu dormi?!?”. São 06h da manhã e Julio acorda com meu movimento brusco. Invento uma desculpa dizendo que preciso ir para casa e em seguida ir trabalhar. Prontamente ele se oferece para me levar. Resolvo aceitar a gentileza, isso me pouparia o trabalho de ficar de olho nele.
Tomamos banho juntos, dessa vez só um banho mesmo, e ele me leva para casa. Chegando lá peço que me espere no carro dizendo que não vou demorar. Subo rapidamente e dou uma olhada em todos os cômodos. Nada fora do lugar, tudo aparentemente em ordem. Troco de roupas e desço.
Julio me leva ao trabalho, fuço no porta luvas e dentre os cds acho um do Raul Seixas. “Adoro Raul”. Coloco para tocar e canto o mais alto que posso revivendo todos os shows que vi. Raul era ainda melhor ao vivo. Peço para ele me deixar na Fradique Coutinho, fingindo que meu trabalho é lá. “Melhor ele não saber o endereço correto”, dou um beijo e desço do carro. Em seguida volto:
- Como o Sr. não tomou café, pelo menos toma isso, vai te fazer bem. Tenha um bom dia. Te adoro. – o “Te adoro” sai sem querer.

- Também te adoro. – ele responde e eu sorrio...de verdade.

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