Não consigo tirar o Julio da minha cabeça. Faz
alguns dias que o transformei e ainda não sei o que fazer com ele.
Não posso dizer ao chefe o que fiz, mas também não
posso esconder uma coisa dessas...se ele descobre por outras fontes, nem quero
pensar no que vai acontecer. No mínimo serei morta de uma maneira bem
desagradável. Desde o fiasco com o Danilo Mansur venho sentindo uma sensação de
pânico crescente. O Chefe mandou uma mensagem, mas não me atrevo a retornar sei
o meu lugar e o conheço bastante pra saber que devo espera.
Sempre que posso tenho vigiado o rapaz. Ele não
saiu muito desde que o devolvemos a sua vidinha medíocre. No máximo foi a
padaria. Pelo visto esse cara não tem nada pra fazer da vida.
Hoje estou me sentindo especialmente enjaulada, não
aguento mais essa tensão e preciso extravasar. Minha vontade é sair por aí,
matar no mínimo umas duas pessoas e não deixar nenhuma gota. “Chega, não
aguento mais ficar aqui.”
Pego minha bolsa e resolvo sair da empresa, mas
antes disso preciso fazer uma ligação:
- Josué. Estou deixando meu carro no escritório,
pegue a chave reserva e leve pra minha casa. – Josué não questiona minha ordem,
ele sabe que muitas vezes eu gosto de andar entre os vivos. Não tem nada de
especial, na verdade gosto da sensação de poder que tenho ao andar. Os homens
me olham de cima a baixo, mexem comigo e acham que podem conseguir alguma
coisa. Mal sabem eles que se eu quisesse poderia matar qualquer um sem me
cansar ou sentir qualquer tipo de remorso.
Saio da empresa e logo estou na avenida Sumaré. A
avenida é bem arborizada e tem uma ciclovia no centro. Muita gente anda, corre,
patina, pedala, enfim, fazem uma série de coisas em um culto ridículo pela
saúde e beleza. “Patético, logo ficarão velhos e enrugados”.
Continuo andando alheia a tudo que se passa, minha
cabeça volta ao quarto dos brinquedos no meu apartamento, volta aos momentos
que antecederam a transformação do Julio. A lembrança me aquece, se é que isso
é possível, lembro do momento exato da morte dele. Estava olhando para aquele
corpo nu amarrado na mesa, tinham vários cortes feitos por mim durante nosso
tempo juntos e eu tremia. Pela primeira vez em mais de 1 século eu estava
nervosa.
Não era minha primeira transformação é claro, mas
era a primeira que eu não tinha autorização para fazer. Mas eu tinha que fazer.
Precisava dele ao meu lado.
- Moça,
por favor, me diz que você fuma e tem fogo pra emprestar. – sou arrancada do
meu devaneio por uma voz que me tira o chão. Bem na minha frente está Julio. Me
controlo pra não transparecer nada e sorrio.
- Deu
sorte, eu estou parando de fumar, mas sempre tenho meu isqueiro comigo, se me
der um cigarro te empresto o isqueiro, que tal? – Realmente tenho um, mas
parando de fumar é piada. Abro a bolsa e pego o isqueiro no bolsinho, do lado
de um maço de Marlboro.
- Fechou!
– ele está pálido. Pelo visto está sentindo os efeitos da não alimentação. Com
certeza tentou comer mas não conseguiu. Eu devia ter ensinado alguma coisa mas
não deu tempo Não podia deixar pistas para o chefe, não até eu decidir o que
fazer.
Ele
acende o cigarro e dá um trago como uma pessoa se afogando puxa o ar, eu acendo
o meu e trago forte, ele me olha nos olhos.
-
Obrigado, não aguentava mais de vontade de fumar.
- E como
você sai de casa com cigarro sem isqueiro? Promessa, autoflagelo, do que se
trata?
Ele ri,
sua risada é uma delícia. Logo conversamos como se nos conhecêssemos há
séculos. Sou acompanhada até o cruzamento e sigo meu caminho para casa. Preciso
vigiar ele de perto, arrumar um jeito de alimentá-lo. A última coisa que
preciso é de um vampiro idiota e inexperiente atacando pessoas por aí. De
repente ouço um grito:
- Aline!
– me viro e lá vem ele correndo. Eu sorrio, mas minha vontade é gargalhar. Que
cena mais idiota. - Olha, eu tava pensando que talvez você tenha ainda vontade
de fumar, então vou deixar alguns cigarros, que tal?
- E essa
gentileza vai me custar? – eu sorrio mais ainda, o xaveco é fraco, mas pelo
visto ele não é tão idiota quanto parece.
- Bom, pode
começar com o seu telefone e a permissão pra eu te ligar mais tarde, que tal? –
Meu Deus. Retiro o que eu disse, ele é um idiota.
- Isso
realmente funciona com alguma mulher? – eu pego um cigarro e saio andando
deixando ele sozinho coçando a cabeça, Depois de alguns passos me viro e ele
ainda está parado olhando, então eu grito:
- Ei Romeu, anota aí meu número, manda uma
mensagem e vamos ver o que dá.
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