Chego em
casa e caio sentada no sofá. Pego o celular e olho para a tela apagada. “Espero
que ele tenha mordido a isca”.
Começo a
pensar em como fazer para me aproximar do rapaz, ou fazer com que um dos meus
se aproxime para alimentá-lo adequadamente sem transparecer o que houve. Não
tenho como saber qual será a reação dele, se irá surtar, se irá aceitar e sair
pensando em dominar o mundo ou se irá se matar. Em qualquer uma das opções que
passam pela minha cabeça ele vai chamar mais atenção do que eu gostaria. Então
preciso ser perfeita nos meus acertos. Começo a olhar minha agenda buscando
alguém de confiança, discrição e inteligência o bastante para me ajudar.
Josué é
idiota demais, Giovanna não é de confiança. Pode se aproveitar dele, e até que
eu decida o oposto Julio será o meu brinquedo. Enquanto estou olhando a agenda
e organizando meus pensamentos a porta se abre, eu me assusto quando vejo Josué
entrando pela porta.
-
Desculpe Senhora Aline, não sabia que já estava em casa.
- Sabendo
ou não seu idiota, a casa não é sua. Quantas vezes preciso ensinar que deve
tocar a campainha? E se eu estivesse acompanhada?
- Me
desculpe novamente, vim apenas deixar a chave do carro. Já estou indo, a
Giovanna está me esperando no carro. Temos que ir até o restaurante.
Dizendo
isso ele saiu fechando a porta. O restaurante é na verdade uma fachada da sociedade,
todos lá respondem a mim e claro, respondem ao chefe. Josué deve ter feito
alguma merda, de novo. A última vez que fui ao restaurante foi a pedido dele que
me disse ter uma surpresa. Quando vi estava em uma mesa com um idiota falando
que queria trabalhar conosco. Ele dizia que sabia o que fazíamos, “Idiota”,
achava que éramos traficantes. A única coisa que valeu a pena naquela noite foi
bater a cabeça do cantorzinho de merda na mesa. O cara ficou aterrorizado com a
minha força. Depois disso deixei claro que o Josué deveria andar na linha ou
iria ter um destino extremamente doloroso. Felizmente minha fama me precede e
ele entendeu o recado.
Quem não
me conhece acha que sou só uma menininha, inclusive os vampiros que me não me
conhecem acham que eu tenho minha posição na hierarquia por algum tipo de favor
sexual. Claro que eu uso meus atributos para conseguir as coisas, inclusive
várias missões que tive que fazer para o Chefe tiveram sucesso devido ao meu
charme, mas o que a maioria desconhece é que eu sou uma das vampiras mais
velhas do Brasil. E como com o aumento da idade também aumenta a força, sou bem
mais forte do que pareço. São poucos os vampiros que ousaram me desafiar, e
sobrou pouca coisa deles para contar a história.
De repente
meu celular toca, um frio sobe na espinha, pode ser mais uma mensagem do
mestre. Olho a tela e é uma mensagem de um número que não existe na minha
agenda. Fico aliviada e sorrio. Ele mordeu a isca.
21h37 - Oi... – Ah rapaz, você pode fazer mais do
que isso, mas vamos ver até onde vai.
21h43 - Oi...
21h43 - E aí, fumou o
cigarro que te dei?
22h44 - Não, tá aqui
ainda, tô me segurando. – se ele souber que joguei fora ficará triste?
21h45 - Foi mal, acho que
não tô ajudando a largar o vício né?
21h50 - Pois é, acho que
vc é uma má influência rs
21h55- Vc não viu nada! –
Pelo amor de Deus, quantas mulheres esse idiota já xavecou? Pelo jeito terei
que ajuda-lo.
21h58 - Sério? E qdo vai
me mostrar?
22h00 - Bom, ainda é
cedo, que tal hoje? – Aleluia.
22h01 - Nossa, como vc é
apressadinho rs...mas tudo bem...pode me encontrar na padaria da Antártica
perto do West, ou não sabe onde é?
22h03 -
Claro...chego lá em 30 minutos, só o tempo de tomar uma ducha...
22h06 - Bom, sabe como é
mulher, vou levar pelo menos uma hora, consegue aguentar? – Vamos ver se ele
está a fim.
22h07 - Pra ver vc? Com
certeza vai valer a pena...te vejo lá.
Me
levanto do sofá e vou em direção ao banheiro. Olho para a porta do quarto dos
brinquedos, as lembranças voltam a minha mente, foi muito bom usá-lo. Meu
brinquedo sabe como me satisfazer.
Tomo um
banho demorado, saio e passo creme pelo corpo todo. Hoje a noite promete.
Separo uma roupa simples, mas que chama atenção. Uma calça jeans preta bem
colada, uma blusinha preta de alcinha que mostra meus seios. “Sexy sem ser
vulgar.” Faço uma maquiagem leve mas capricho no batom, vermelho cor de sangue para
chamar muita atenção. Com certeza ele vai ter uma surpresa.
Acabo
demorando mais do que pretendia me arrumando. Saio de casa depois das 23h20.
Com certeza ele vai me esperar, não é todo dia que ele sai como uma mulher como
eu, na verdade eu tenho certeza que ele nunca teve uma mulher como eu.
Ando
devagar aproveitando a noite. O clima está especialmente agradável. Não está
quente, nem frio, não que faça diferença, afinal o clima não importa para nós. Eu
poderia andar de jaqueta no deserto ou de vestidinho no inverno americano sem
me importar. As roupas que usamos servem apenas para auxiliar a passarmos
despercebidos.
Levo
pouco mais de 10 minutos caminhando, e quando estou chegando meu celular toca.
Mais uma mensagem de texto “Desculpa, tô chegando”. Não acredito que eu vou ter
que esperar por ele. Eu nunca espero.
Quando
estou chegando vejo o palerma em pé me procurando nas mesas. Fico parada
observando por alguns segundos ele está agitado, parece preocupado. “Ótimo”
preciso dele na minha mão. Melhor acabar logo com a agonia dele.
- Ah, eu
já estava indo embora, mas vi sua mensagem no celular e resolvi voltar...e aí,
perdeu a hora gato?
Ele se
vira meio sem graça, mas com os olhos brilhando. Assim que me vê fica sem
folego.
- Foi
mal...acabei não vendo a hora...belo começo né?
- Bom,
sua sorte é que eu também me atrasei e achei que você tinha ido embora, então
podemos considerar vacilo dos dois lados, que tal? – Normalmente eu mandaria
matar um idiota desses, mas ainda não é a hora.
Ele fica
ali parado sorrindo feito um idiota. Será que escolhi errado?
Eu tomo a
iniciativa e peço uma mesa ao garçom. O garçom é um velho conhecido meu, um
vampiro chamado Edgard. Trabalha para mim, mas a meu pedido fica fora dos
negócios da organização. É um faz tudo que fica próximo quando eu preciso.
Pouca gente sabe que ele existe e é melhor manter assim. Hoje ele será de muita
valia.
- Vou
tomar um Blood, e você também, já que me deixou esperando vai ter que pagar um
mico...e nem adianta perguntar, eu não vou dizer o que tem na bebida. – ele
continua sorrindo. Está comendo na minha mão.
Chamo
Edgard e peço a bebida, ele sabe como fazer. A bebida é o preparo que tomamos para
não precisarmos de sangue. Um saco na verdade, afinal nada supera o gosto do
sangue. Em questão de minutos a bebida chega, o composto foi misturado a vodca
Absolut, afinal eu não bebo qualquer coisa, o que dá um toque de classe.
Eu tomo
um gole do meu copo e Julio dá um gole do dele, na mesma hora seu corpo reage.
As maças do rosto dele ficam vermelhas e o corpo começa a ter um pouco de cor.
Ele bebe o copo em segundos sem nem perceber, logo pedimos o segundo, terceiro
e assim vai. Julio fica um pouco alegre, mais efeito psicológico do que da
bebida. A conversa flui bem, ele me conta toda sua vida e eu conto o que ele
precisa saber. Invento que trabalho em uma agencia de publicidade, moro sozinha
e sou uma pessoa simples. “Ah, será uma delícia contar para ele quem eu sou!”
Por volta
das 02h da manhã Edgard nos avisa que o estabelecimento está fechando, o medo
está em seus olhos, afinal isso deveria ficar aberto o quanto fosse necessário
para me satisfazer. Mas avaliando a situação eu deixo passar e ajo com
naturalidade. Julio pede a conta e Edgard olha em minha direção confuso. Eu
faço um meneio de cabeça e o garçom se retira voltando alguns minutos depois
com a comanda e a máquina de cartões. O rapaz esbanja cavalheirismo e paga toda
a conta, eu faço um charme dizendo que devo pagar pelo menos a metade, mas ele
insiste.
Mantendo
o cavalheirismo em alta Julio me acompanha até em casa, em alguns momentos ele
deixa sua mão tocar na minha “sem querer” e eu sorrio em aprovação. O rapaz
realmente é lerdo.
Paramos
na frente do prédio e Julio me encara. “O que mais ele quer para me beijar”. Minha
paciência acaba e eu o beijo, sou imediatamente correspondida, sua língua entra
na minha boca e já não sei quem domina quem.
Subimos para
o apartamento levados pela volúpia do momento, foi um pouco complicado abrir a
porta sendo empurrada contra ela, mas eu consegui. Entramos e eu arranco sua
camiseta jogando sobre o sofá. Ele faz o mesmo com minha blusinha e meus seios
ficam a mostra. Suas mãos passeiam pelo meu corpo e brigamos para ver quem tira
a roupa de quem. Eu o empurro pela sala, corredor e ele me vira de costas
prensando meu corpo contra a porta e beija meu pescoço. Não consigo suprimir um
gemido e Julio comemora. Estamos na porta do quarto dos brinquedos, por sorte
essa porta fica sempre trancada. Tento me soltar, mas suas mãos prendem meus
braços, “Ele é forte, mais do que parece, mais do que um vampiro comum”.
Solto
meus braços, me desvencilho do seu abraço e o puxo pelo cinto da calça até meu
quarto. Julio vem fácil como um cachorrinho ensinado. Me deito na cama e ele
vem por cima. Tira o resto da minha roupa beijando cada pedacinho do meu corpo.
A cada toque de sua boca eu me arrepio, de repente eu não resisto mais e me entrego.
Eu sou dele.
Eu não
durmo, não preciso e de madrugada quase nunca consigo, mas Julio dorme
profundamente ao meu lado, abraçado a mim, com seu braço envolvendo meu corpo.
Ele ainda não está habituado e não se alimentou direito, só isso justifica seu
sono. Mas além de tudo isso gastamos muita energia.
De
repente sinto ele tremer e acordar, cuidadosamente seu braço sai de baixo do
meu rosto e eu me aninho nele, fingindo continuar dormindo. Ele se esforça para
sair da cama sem fazer barulho para não me acordar. O que houve?
Ele
levanta e sai atrapalhado pelo quarto tropeçando em uma das peças de roupas do
chão. O tombo é feio, mas ele vai sobreviver. Finjo que acordei e como uma gata
no cio eu gemo.
- Onde
você vai Ju?
- Ao
banheiro. – A voz dele deixa claro que não está bem. Eu levando e resolvo
ajudar o moribundo. Finjo medir febre e simulo limpar minha mão na camiseta
como se ele estivesse suando. Coloco seu braço em volta do meu pescoço e o levo
ao banheiro. Ele vomita o pouco de coisa que ainda tem no estomago. O que
sobrou é só vodca, todo o resto foi absorvido pelo organismo fraco e sedento de
alimento.
Tentando
manter o pouco de dignidade que lhe resta ele pede que eu saia do banheiro. Eu
obedeço, vou até o quarto e coloco um short. Em seguida vou para a cozinha.
Preparo
uma bebida quente, um chá com o mesmo composto que ele bebeu na padaria. Na
verdade, ele pode até se alimentar disso puro, mas como vem em pó, é melhor
hidratar com alguma coisa, normalmente usamos água.
Esse
composto substitui nossa necessidade por sangue, mas não nossa vontade. Julio
sente falta, mas não sabe do que já que nunca bebeu sangue. É como um virgem
sentir falta de sexo, existe a necessidade, a vontade, mas é impossível saciar
já que não faz ideia do que precisa, porém como um animal no cio, um vampiro recém
transformado age por instinto, meu receio é ele perder o controle em alguma
situação que envolva sangue. Basta uma besteira para tudo sair do controle.
Me sento
a mesa com minha caneca do Star Wars e bebo calmamente enquanto aguardo Julio
parar de beijar a privada. Deixo uma caneca servida para ele beber alguns
minutos depois ele vem cambaleando, seus olhos me encontram na mesa e ele fica hipnotizado.
- Ju,
senta aqui e toma um chá, acho que a bebida de hoje não te fez bem. – “Eu sou
tão boazinha.”
Ele
senta, pega a caneca e olha. É o Darth Vader. Julio sorri e bebe. Sabia que ele
ia gostar.
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