quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Capítulo 9

Chego em casa e caio sentada no sofá. Pego o celular e olho para a tela apagada. “Espero que ele tenha mordido a isca”.
Começo a pensar em como fazer para me aproximar do rapaz, ou fazer com que um dos meus se aproxime para alimentá-lo adequadamente sem transparecer o que houve. Não tenho como saber qual será a reação dele, se irá surtar, se irá aceitar e sair pensando em dominar o mundo ou se irá se matar. Em qualquer uma das opções que passam pela minha cabeça ele vai chamar mais atenção do que eu gostaria. Então preciso ser perfeita nos meus acertos. Começo a olhar minha agenda buscando alguém de confiança, discrição e inteligência o bastante para me ajudar.
Josué é idiota demais, Giovanna não é de confiança. Pode se aproveitar dele, e até que eu decida o oposto Julio será o meu brinquedo. Enquanto estou olhando a agenda e organizando meus pensamentos a porta se abre, eu me assusto quando vejo Josué entrando pela porta.
- Desculpe Senhora Aline, não sabia que já estava em casa.
- Sabendo ou não seu idiota, a casa não é sua. Quantas vezes preciso ensinar que deve tocar a campainha? E se eu estivesse acompanhada?
- Me desculpe novamente, vim apenas deixar a chave do carro. Já estou indo, a Giovanna está me esperando no carro. Temos que ir até o restaurante.
Dizendo isso ele saiu fechando a porta. O restaurante é na verdade uma fachada da sociedade, todos lá respondem a mim e claro, respondem ao chefe. Josué deve ter feito alguma merda, de novo. A última vez que fui ao restaurante foi a pedido dele que me disse ter uma surpresa. Quando vi estava em uma mesa com um idiota falando que queria trabalhar conosco. Ele dizia que sabia o que fazíamos, “Idiota”, achava que éramos traficantes. A única coisa que valeu a pena naquela noite foi bater a cabeça do cantorzinho de merda na mesa. O cara ficou aterrorizado com a minha força. Depois disso deixei claro que o Josué deveria andar na linha ou iria ter um destino extremamente doloroso. Felizmente minha fama me precede e ele entendeu o recado.
Quem não me conhece acha que sou só uma menininha, inclusive os vampiros que me não me conhecem acham que eu tenho minha posição na hierarquia por algum tipo de favor sexual. Claro que eu uso meus atributos para conseguir as coisas, inclusive várias missões que tive que fazer para o Chefe tiveram sucesso devido ao meu charme, mas o que a maioria desconhece é que eu sou uma das vampiras mais velhas do Brasil. E como com o aumento da idade também aumenta a força, sou bem mais forte do que pareço. São poucos os vampiros que ousaram me desafiar, e sobrou pouca coisa deles para contar a história.
De repente meu celular toca, um frio sobe na espinha, pode ser mais uma mensagem do mestre. Olho a tela e é uma mensagem de um número que não existe na minha agenda. Fico aliviada e sorrio. Ele mordeu a isca.
21h37 - Oi... – Ah rapaz, você pode fazer mais do que isso, mas vamos ver até onde vai.
21h43 - Oi...
21h43 - E aí, fumou o cigarro que te dei?
22h44 - Não, tá aqui ainda, tô me segurando. – se ele souber que joguei fora ficará triste?
21h45 - Foi mal, acho que não tô ajudando a largar o vício né?
21h50 - Pois é, acho que vc é uma má influência rs
21h55- Vc não viu nada! – Pelo amor de Deus, quantas mulheres esse idiota já xavecou? Pelo jeito terei que ajuda-lo.
21h58 - Sério? E qdo vai me mostrar?
22h00 - Bom, ainda é cedo, que tal hoje? – Aleluia.
22h01 - Nossa, como vc é apressadinho rs...mas tudo bem...pode me encontrar na padaria da Antártica perto do West, ou não sabe onde é?
22h03 -  Claro...chego lá em 30 minutos, só o tempo de tomar uma ducha...
22h06 - Bom, sabe como é mulher, vou levar pelo menos uma hora, consegue aguentar? – Vamos ver se ele está a fim.
22h07 - Pra ver vc? Com certeza vai valer a pena...te vejo lá.
Me levanto do sofá e vou em direção ao banheiro. Olho para a porta do quarto dos brinquedos, as lembranças voltam a minha mente, foi muito bom usá-lo. Meu brinquedo sabe como me satisfazer.
Tomo um banho demorado, saio e passo creme pelo corpo todo. Hoje a noite promete. Separo uma roupa simples, mas que chama atenção. Uma calça jeans preta bem colada, uma blusinha preta de alcinha que mostra meus seios. “Sexy sem ser vulgar.” Faço uma maquiagem leve mas capricho no batom, vermelho cor de sangue para chamar muita atenção. Com certeza ele vai ter uma surpresa.
Acabo demorando mais do que pretendia me arrumando. Saio de casa depois das 23h20. Com certeza ele vai me esperar, não é todo dia que ele sai como uma mulher como eu, na verdade eu tenho certeza que ele nunca teve uma mulher como eu.
Ando devagar aproveitando a noite. O clima está especialmente agradável. Não está quente, nem frio, não que faça diferença, afinal o clima não importa para nós. Eu poderia andar de jaqueta no deserto ou de vestidinho no inverno americano sem me importar. As roupas que usamos servem apenas para auxiliar a passarmos despercebidos.
Levo pouco mais de 10 minutos caminhando, e quando estou chegando meu celular toca. Mais uma mensagem de texto “Desculpa, tô chegando”. Não acredito que eu vou ter que esperar por ele. Eu nunca espero.
Quando estou chegando vejo o palerma em pé me procurando nas mesas. Fico parada observando por alguns segundos ele está agitado, parece preocupado. “Ótimo” preciso dele na minha mão. Melhor acabar logo com a agonia dele.
- Ah, eu já estava indo embora, mas vi sua mensagem no celular e resolvi voltar...e aí, perdeu a hora gato?
Ele se vira meio sem graça, mas com os olhos brilhando. Assim que me vê fica sem folego.
- Foi mal...acabei não vendo a hora...belo começo né?
- Bom, sua sorte é que eu também me atrasei e achei que você tinha ido embora, então podemos considerar vacilo dos dois lados, que tal? – Normalmente eu mandaria matar um idiota desses, mas ainda não é a hora.
Ele fica ali parado sorrindo feito um idiota. Será que escolhi errado?
Eu tomo a iniciativa e peço uma mesa ao garçom. O garçom é um velho conhecido meu, um vampiro chamado Edgard. Trabalha para mim, mas a meu pedido fica fora dos negócios da organização. É um faz tudo que fica próximo quando eu preciso. Pouca gente sabe que ele existe e é melhor manter assim. Hoje ele será de muita valia.
- Vou tomar um Blood, e você também, já que me deixou esperando vai ter que pagar um mico...e nem adianta perguntar, eu não vou dizer o que tem na bebida. – ele continua sorrindo. Está comendo na minha mão.
Chamo Edgard e peço a bebida, ele sabe como fazer. A bebida é o preparo que tomamos para não precisarmos de sangue. Um saco na verdade, afinal nada supera o gosto do sangue. Em questão de minutos a bebida chega, o composto foi misturado a vodca Absolut, afinal eu não bebo qualquer coisa, o que dá um toque de classe.
Eu tomo um gole do meu copo e Julio dá um gole do dele, na mesma hora seu corpo reage. As maças do rosto dele ficam vermelhas e o corpo começa a ter um pouco de cor. Ele bebe o copo em segundos sem nem perceber, logo pedimos o segundo, terceiro e assim vai. Julio fica um pouco alegre, mais efeito psicológico do que da bebida. A conversa flui bem, ele me conta toda sua vida e eu conto o que ele precisa saber. Invento que trabalho em uma agencia de publicidade, moro sozinha e sou uma pessoa simples. “Ah, será uma delícia contar para ele quem eu sou!”
Por volta das 02h da manhã Edgard nos avisa que o estabelecimento está fechando, o medo está em seus olhos, afinal isso deveria ficar aberto o quanto fosse necessário para me satisfazer. Mas avaliando a situação eu deixo passar e ajo com naturalidade. Julio pede a conta e Edgard olha em minha direção confuso. Eu faço um meneio de cabeça e o garçom se retira voltando alguns minutos depois com a comanda e a máquina de cartões. O rapaz esbanja cavalheirismo e paga toda a conta, eu faço um charme dizendo que devo pagar pelo menos a metade, mas ele insiste.
Mantendo o cavalheirismo em alta Julio me acompanha até em casa, em alguns momentos ele deixa sua mão tocar na minha “sem querer” e eu sorrio em aprovação. O rapaz realmente é lerdo.
Paramos na frente do prédio e Julio me encara. “O que mais ele quer para me beijar”. Minha paciência acaba e eu o beijo, sou imediatamente correspondida, sua língua entra na minha boca e já não sei quem domina quem.
Subimos para o apartamento levados pela volúpia do momento, foi um pouco complicado abrir a porta sendo empurrada contra ela, mas eu consegui. Entramos e eu arranco sua camiseta jogando sobre o sofá. Ele faz o mesmo com minha blusinha e meus seios ficam a mostra. Suas mãos passeiam pelo meu corpo e brigamos para ver quem tira a roupa de quem. Eu o empurro pela sala, corredor e ele me vira de costas prensando meu corpo contra a porta e beija meu pescoço. Não consigo suprimir um gemido e Julio comemora. Estamos na porta do quarto dos brinquedos, por sorte essa porta fica sempre trancada. Tento me soltar, mas suas mãos prendem meus braços, “Ele é forte, mais do que parece, mais do que um vampiro comum”.
Solto meus braços, me desvencilho do seu abraço e o puxo pelo cinto da calça até meu quarto. Julio vem fácil como um cachorrinho ensinado. Me deito na cama e ele vem por cima. Tira o resto da minha roupa beijando cada pedacinho do meu corpo. A cada toque de sua boca eu me arrepio, de repente eu não resisto mais e me entrego. Eu sou dele.
Eu não durmo, não preciso e de madrugada quase nunca consigo, mas Julio dorme profundamente ao meu lado, abraçado a mim, com seu braço envolvendo meu corpo. Ele ainda não está habituado e não se alimentou direito, só isso justifica seu sono. Mas além de tudo isso gastamos muita energia.
De repente sinto ele tremer e acordar, cuidadosamente seu braço sai de baixo do meu rosto e eu me aninho nele, fingindo continuar dormindo. Ele se esforça para sair da cama sem fazer barulho para não me acordar. O que houve?
Ele levanta e sai atrapalhado pelo quarto tropeçando em uma das peças de roupas do chão. O tombo é feio, mas ele vai sobreviver. Finjo que acordei e como uma gata no cio eu gemo.
- Onde você vai Ju?
- Ao banheiro. – A voz dele deixa claro que não está bem. Eu levando e resolvo ajudar o moribundo. Finjo medir febre e simulo limpar minha mão na camiseta como se ele estivesse suando. Coloco seu braço em volta do meu pescoço e o levo ao banheiro. Ele vomita o pouco de coisa que ainda tem no estomago. O que sobrou é só vodca, todo o resto foi absorvido pelo organismo fraco e sedento de alimento.
Tentando manter o pouco de dignidade que lhe resta ele pede que eu saia do banheiro. Eu obedeço, vou até o quarto e coloco um short. Em seguida vou para a cozinha.
Preparo uma bebida quente, um chá com o mesmo composto que ele bebeu na padaria. Na verdade, ele pode até se alimentar disso puro, mas como vem em pó, é melhor hidratar com alguma coisa, normalmente usamos água.
Esse composto substitui nossa necessidade por sangue, mas não nossa vontade. Julio sente falta, mas não sabe do que já que nunca bebeu sangue. É como um virgem sentir falta de sexo, existe a necessidade, a vontade, mas é impossível saciar já que não faz ideia do que precisa, porém como um animal no cio, um vampiro recém transformado age por instinto, meu receio é ele perder o controle em alguma situação que envolva sangue. Basta uma besteira para tudo sair do controle.
Me sento a mesa com minha caneca do Star Wars e bebo calmamente enquanto aguardo Julio parar de beijar a privada. Deixo uma caneca servida para ele beber alguns minutos depois ele vem cambaleando, seus olhos me encontram na mesa e ele fica hipnotizado.
- Ju, senta aqui e toma um chá, acho que a bebida de hoje não te fez bem. – “Eu sou tão boazinha.”

Ele senta, pega a caneca e olha. É o Darth Vader. Julio sorri e bebe. Sabia que ele ia gostar.

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