segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Capítulo 6


O homem se assustou ao acordar e me ver em pé na frente dele. Tentou se levantar, mas a firmeza das cordas o impediu.
Ele continuou a forçar e forçar. Debatia-se, tentando por toda a lei se livrar do aperto, até que não aguentou mais e desistiu, respirando com dificuldade.
- Quem é você?! - questionou assustado. A voz dele era rouca.
Não respondi.
- O que você quer? Como… Mas o quê…?
Fui andando lentamente na direção dele. Ele não conseguia tirar os olhos de mim. Os cabelos e o robe ondulavam, quase como se eu flutuasse no ar.
- Vamos nos divertir? Você está muito estressado, Júlio!
O homem arregalou os olhos.
- Você sabe meu nome… - olhou ao redor. Viu suas coisas apoiadas na bancada. - Me solte agora! O que você quer comigo? - e tentou se soltar novamente. Ele empregava tamanha força que balançaria a mesa de metal se ela não estivesse parafusada no chão. Felizmente eu havia tomado algumas precauções para que isso não acontecesse.
Fui a uma outra bancada próxima e desenrolei uma bolsa de couro. Dentro, havia alguns instrumentos prateados. Estava de costas para ele, que me seguia o tempo todo com os olhos.
- Você não vai se soltar. A corda que está em seus pulsos e tornozelos está presa abaixo da mesa. Os pés dela impedem que a corda passe e você se solte. Simples e eficiente.
- Porque você me amarrou? O que eu fiz pra você?
- Para mim? Absolutamente nada. Quem vai fazer sou eu.
Com um sorriso no rosto, peguei uma pequena faca e me virei para que ele visse. E cheguei bem perto dele.
- O que vai fazer com isso? Hey… o que vai fazer com isso?
- Sssssshhhhh.
Levantei a camiseta dele e devagar, lhe fiz um pequeno corte na barriga.
- AAAAAAAH, QUE ISSOOOO?! PAAAARA!!
O sangue brotou rapído e na mesma velocidade, minha boca estava no corte, sorvendo o que saía.
- SOCORRO! SOCORRO! ALGUÉM ME AJUDE!
Júlio se debatia, mas em vão. Estava segurando ele para que minha boca não escapasse do ferimento. E tomei aquele sangue devagar. Meu Deus, como era incrível o sabor! Iria aproveitar todas as gotas que pudesse.
- Não adianta gritar. Aqui ninguém vai te escutar! - disse, com a boca manchada de vermelho. Dei a volta na mesa. Julio ainda tentou gritar mais algumas vezes.
- ALGUÉM ME AJUDE! POR FAVOR… SOCORRO, SOC...
Dei uma bofetada na cara dele. O tapa até estalou de tanta força. Ele calou a boca porque ficou zonzo com a pancada.
- Ora, mas ainda nem comecei.
Passei a faca no braço esquerdo dele, fazendo escorrer um filete de sangue. Ele gemeu baixo por conta do corte e eu lambi devagar o líquido consistente. Tão doce… em tantos anos de existência, nunca havia sentido um sabor tão único.
- Porque você está fazendo isso comigo?
Levantei a cabeça e olhei pra ele antes de responder.
- Porque eu quero. E porque eu posso.
- Seus olhos… são vermelhos… ? Quem é você? - com os olhos arregalados, Júlio tentava se afastar, e dava trancos para trás, porém sem sucesso.
- Ssssshhhhh… Sem perguntas, sim? - respondi, colocando o indicador nos lábios dele para que ficasse quieto.
Encostei a lâmina gelada na barriga de Júlio. Como reação, os pelos do seu corpo se arrepiaram. A ponta estava perigosamente abaixo da costela esquerda. Ele tremia a cada movimento meu, temendo um novo corte. Estava começando a suar frio.
Então cortei de baixo para cima. Ele até fechou os olhos, entretanto tinha cortado apenas a camiseta dele. Abri o que sobrou do tecido para ver melhor seu peito nu.
- Que maravilha! - pensei em voz alta!
Coloquei a ponta da língua no mamilo dele. Posso arriscar em dizer que se ele não estivesse na situação em que estava, estaria gostando bastante. Mas se sentiu violentado.
- Por favor… pare! - disse Júlio em voz baixa.
- Não!
- Pare… par… AHHHHH!
Rasguei o mamilo dele com uma de minhas presas. Enquanto se debatia e gritava mais uma vez, segurava-o na mesa com o peso de uma mão sem dificuldade, bebendo do sangue que escapava dali.
- Você é louca... Por quê?
Cheguei bem perto do rosto dele e sussurrei:
- Um sangue tão bom assim não deve ser desperdiçado.
Rodeei a mesa novamente, analisando com calma aquele humano. Sorria para ele, que me devolvia um olhar fulminante. Não tinha medo nem repulsa vindo dele, só raiva genuína.
- Quero ver por quanto tempo você vai manter essa expressão.
-Você é doida! Você vai...
Abri o cinto da calça dele.
- Quando eu conseguir me soltar, você vai se arrepender.
Soltei uma gargalhada sonora.
- Você não vai sair daqui. Você será meu brinquedo de honra. Vai me entreter enquanto eu não estiver precisando pensar. E quando eu me enjoar... Veremos!
- O que você é? Uma espécie de psicopata? - quis saber Júlio.
- Não, sou algo muito pior.
Com um puxão firme, arranquei as calças dele.
- Hey, que porra é essa?
- Já disse para calar a boca!
A faca cortou de novo, dessa vez na coxa dele e ele gritou mais uma vez. O sangue escapou, mas não desperdicei nenhuma gota. Coletei o que estava escorrendo com os dedos e levei à boca.
Estava totalmente inebriada com o sangue de Júlio. Meu organismo o recebeu de braços abertos e já podia sentir a absorção ocorrendo dentro de mim. Meus sentidos chegaram à amplitude máxima e era possível até mesmo ouvir o que se passava fora daquele quarto acústico. Parecia que eu estava em uma sensação de torpor, quase como quando você bebe álcool, porque realmente grandes quantidades de sangue podiam deixar alguns não-vivos em um estado maior de euforia.
Acho que essa, inclusive, era a palavra certa para me descrever naquele momento: euforia. Era o que eu estava sentindo.
Jamais teria feito o que fiz se não fosse o sangue de Júlio. Foi impulsivo e impensado. Mas tão rápido e automático que não foi possível frear.
Coloquei uma seleção de músicas para tocar enquanto brincava com ele.
A primeira da lista foi "Here I Am Rock You Like A Hurricane", da banda Scorpions. Rodopiei ao som da melodia e cada nota de guitarra que soava dizia quem era a dona de tudo ali. Júlio olhava aquela cena incrédulo. Devia achar que eu era uma louca. E era mesmo. Turbinada pelo sangue dentro de mim. Contudo, algo me dizia que ele estava curtindo me ver dançar daquele jeito.
"Here I am rock you like a hurricane (Aqui estou eu sacudindo você como um furacão)".
Balançava o quadril com sedução misteriosa e uma flexibilidade impressionante. Parecia até profissional. Talvez eu instale um pole dance aqui no quarto.
Júlio não tirou os olhos de mim por um minuto. Deles emanavam uma mistura de ódio e desejo, ao mesmo tempo.
Aqueles sentimentos me dominaram por completo e não resisti. Quando percebi, já estava em cima dele, roçando minha virilha na dele. E numa dança sangrenta e cheia de rock, transamos. No ápice da coisa, vi a jugular dele pulsando freneticamente. Não resisti e abocanhei. As presas rasgaram a carne até seu objetivo, arrancando-lhe mais um gemido de dor. Dessa vez, drenei uma quantidade considerável de sangue, fazendo o coração do humano ficar bem lento.
Ele estava tendo apenas pequenos vislumbres de consciência. Mas deve ter ouvido o que lhe sussurrei no ouvido antes de sair do quarto de brinquedos:
- Não se preocupe, vai ficar tudo bem!

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Capítulo 5



Saí em disparada. Precisava sumir, então acelerei o carro e corri como nunca. Peguei a Brigadeiro Luiz Antônio sentido Ibirapuera. Provavelmente fui pega em um ou dois radares por aí. Precisava rodar, refletir e pôr a cabeça no lugar. Além disso, estava faminta. Meu organismo estava cobrando a ausência do sangue do Danilo. Contudo, me contentaria com qualquer outro. Ainda não tinha dado meia-noite. A lua estava bem cheia no céu e iria aproveitar para fazer uma boquinha.
Estacionei próximo ao Parque do Ibirapuera, em um local ermo. Tinha um local (antigamente um estacionamento) onde alguns homens e mulheres se encontravam para fazer sexo, seja de forma voluntária ou profissional. Muitas pessoas estavam no local. Inclusive, alguns comerciantes vendendo bebidas, pizzas e outras coisas menos lícitas.
Entrei no local, observando os presentes. Vários carros estavam com os porta-malas abertos, exibindo caixas de som de última geração. Estilos como pop ou eletrônico eram tocados ao mesmo tempo, tornando a “trilha sonora” do local uma cacofonia.
Atraía olhares conforme eu passava, tanto de homens quanto de mulheres. Se quisesse, poderia selecionar parceiros e parceiras sem fim. Tanto para necessidades sexuais quanto alimentícias. Particularmente não tinha frescura com o tipo de sangue que beberia. Etnias, credos e outros conceitos moralmente humanos não importavam mais. Somente o sangue importava. Ele era alimento, sustento. Quando a sede ou a fome vem, o que importa é se saciar. O sangue era como uma droga. Nego ficava frenético quando estava em abstinência. Tinha vampiro que tentava ser bonzinho, não matar, nem nada… só tentar consumir sangue de roedores urbanos ou de Bancos de Sangue… mas esses ficavam loucos rápido com a ausência. O “lance”, para nos mantermos saudáveis, era consumir sangue quente, direto da fonte.
No fim do antigo estacionamento tinha um bosque. Um certo movimento de pessoas indo e vindo dava a impressão de que ali rolavam as coisas escusas. Por isso, entrei por uma das trilhas de terra. O ferimento causado pela prata ainda queimava um pouco, mas conseguia pisar com mais firmeza agora.
Continuei caminhando. Meus ouvidos com capacidade sobrehumanas captavam barulhos molhados, murmúrios e gemidos, vindos de vários lugares. O negócio ali era pesado. E um vampiro pode se divertir demais em locais assim.
A trilha havia chegado ao fim. Vi uma garota parada. Estava de costas para mim e parecia bêbada. Não notou minha presença, pois vampiros tem reflexo e agilidade felinas. É muito difícil de sermos notados. Mesmo em terrenos com obstáculos como grama ou galhos. Se eu ainda fosse humana, com certeza estaria fazendo o maior barulho.
Com firmeza, a agarrei por trás, imobilizando seus braços e sua cabeça. A jugular estava ao alcance e logo cravei meus dentes. O sangue jorrou quente e delicioso na minha boca. Engolia com sofreguidão, parecendo uma criança faminta. Até gemia, tamanho era o prazer. Não demorou muito e senti seu coração enfraquecendo. Era tão difícil não tomar até a última gota! Mas soltei a garota. A contragosto, mas soltei. E a coloquei confortavelmente no chão. Ela estava semiconsciente, os olhos tremiam. Mas ia ficar bem.
Com uma das unhas, aumentei a mordida, para que parecesse um ferimento feito à faca. Depois, me debrucei sobre ela, que olhou direto nos meus olhos.
- Quando encontrarem você, dirá que foi violentada e atacada. Estava escuro e você não viu quem foi.
Ela fez que sim com a cabeça e eu fui embora dali.
Estava me sentindo um pouco melhor. Pelo menos a minha coxa tinha parado de doer. E podia pensar com mais clareza agora.
O sangue da garota fluía dentro do meu organismo, devolvendo vigor às partes necessitadas. Além disso, ele gerou um processo que denominamos como Simbiose. De acordo com microbiólogos vampiros, quando o sangue da presa cai no estômago, uma variante do vírus vampírico é criada, adequado para se hospedar perfeitamente no organismo dela. Bastavam algumas gotas do nosso sangue para a transmissão do vírus e assim, ele se multiplicava extremamente rápido, subjugando e preparando o hospedeiro para suas novas características corpóreas. Por fim, tudo que era humano no hospedeiro morre e ele renasce em uma não-vida, pois clinicamente, seria dado como morto. Um morto andante que se alimentava de sangue humano para viver. Um não-vivo.
Se de alguma forma o nosso sangue entrasse em contato com o organismo da presa sem ao menos termos drenado um pouco do dela, ela morreria no ato. Isso ocorria porque, sem a variante correta, o vírus vampírico entrava em guerra com o sistema imunológico da vítima e destruía suas defesas. Semelhante ao vírus HIV, exceto por sua velocidade, que matava o hospedeiro em questão de horas.
Minha cabeça estava a mil por hora. Os instintos completamente aflorados, podendo, por exemplo, ver gotas de orvalho em uma folha, numa árvore que está do outro lado da rua. Perto dali, estava meu carro. Entrei nele, dei a partida e saí de ré. Engatei a primeira e parti para longe. Decidi dar uma volta pela cidade, ver o movimento e dirigir um pouco. Percorri a Avenida Brasil e entrei na Henrique Schaumann. De lá, acessei a Rebouças, Paulista e Augusta. Caí no centro velho e pela São João, fiz o caminho de volta para o apartamento.
No relógio marcava mais de 02h e não tinha dado conta do tempo passando. Então recebi uma ligação de Josué, um dos meus empregados. Coloquei no viva voz enquanto dirigia.
- Alô, senhora Aline?
- Sim, Josué. Pode falar.
- Onde a senhora está?
- A caminho de casa. Por quê?
-Tenho uma surpresa para a senhora. Estou levando algo de que vai gostar muito.
- Eu devo me animar ou me preocupar com essa sua nova supresa?
Josué riu do outro lado da linha.
- Hahaha, tenho certeza de que a senhora não vai se arrepender.
- Hum... Eu não acredito em você, sabe? Você sempre me causa problemas. Quem me garante que isso não é mais um na lista?
Ele ficou em silêncio por alguns segundos antes de responder.
- Por favor, dê um voto de confiança pra mim, senhora Aline. Quero me redimir das últimas enrascadas que fiz você se enfiar por minha causa. Papo quente, você vai curtir.
- Tudo bem. Já estou chegando.
- Venha logo!
- Josué, eu juro que se você tiver feito alguma merda, nós teremos uma conversa muito séria.
- Pode deixar, senhora.
- Até mais!
Desliguei o telefone um pouco apreensiva. Josué era um vampiro bem alto e um dos meus empregados mais leais. Sabia que podia contar com ele para qualquer coisa. Já me ajudou e até me protegeu diversas vezes em situações de risco. Profissionalmente falando é meu guarda costas quando vamos a eventos públicos. Entretanto, cometia diversas besteiras. Vira e mexe ele deixava um corpo mal encoberto. Sempre que alguém encontrava, juntava Polícia e IML, daí virava a maior confusão. Daquelas que são exibidas em programas “policiais” de péssimo gosto na parte da tarde. Apesar de a sua lealdade ser o seu maior trunfo, uma de suas últimas gafes me deixou tão irada que exigi que ele me chamasse de senhora a partir de então. Ele precisava ser humilhado por um tempo para aprender.
Dado o tempo certo, chego no prédio e estaciono na minha vaga. Da garagem, acesso o elevador e desço no 1º andar, onde fica meu apartamento. Depois de alguns minutos, estou vestida apenas com um robe preto, nua por baixo. E me sinto confortável assim.
O interfone tocou. Era Josué. Libero a entrada dele. Quando abro a porta, vejo-o carregando um homem pelos ombros. Ele estava inconsciente, com a maçã esquerda do rosto inchada e um pequeno corte na região. Parecia que tinha levado um soco na cara. A barba estava meio que por fazer. Tinha aspecto viril, cabelo curto estilo undercut e lábios bem desenhados.
Junto com ele estava outra subordinada minha, chamada Giovanna. Essa era especial, pois havia sido transmutada por mim. Linda, loira, sensual e fatal. Era, assim como Josué, meu braço direito. Ficamos nos olhando por um tempo. Depois, olhei de volta para Josué e aquele humano.
E sorri.
- Quer dizer então que agora você quer me agradar com macho de gueto, é? - questionei Josué com as mãos na cintura.
Ele me olhou de cima a baixo, pois não tinha reparado o quanto aquele hobby desenhava bem meu corpo. Deu uma risada sem graça antes de dizer:
- Bom, de acordo com a Giovanna, esse é de primeira e ela disse que você ia querer ele como brinquedo, não é? - mencionou Josué, olhando para Giovanna.
- Sim, eu achei ele bem gatinho e como conheço bem os seus gostos, achei que você ia querer se divertir um pouco. - Giovanna acariciou os cabelos do homem, sorrindo. - Aline, dê uma lambida na ferida do rosto dele. Sinta o sabor do sangue.
Me aproximei para ver melhor e Josué virou a cabeça dele, de modo que eu pudesse ficar bem de frente para a ferida. Só o cheiro do sangue coagulado me inebriou. Lambi a ferida… era deliciosamente doce. Com a unha, forcei a carne e um filete de sangue escorreu do pequeno corte. Passei a lingua no rosto dele.
“Que delícia!”, pensei.
Nunca havia sentido o gosto de um sangue tão encorpado, tão tenro e tão maravilhoso. Aquilo era sangue de homem de fibra. O conjunto da obra, por assim dizer, era realmente muito interessante. Bonito e tinha um gosto excelente. Outro filete estava despontando do corte. Passei o polegar para limpar a região e o levei a boca. Era como uma gorda comendo doce de leite direito do pote.
E uma iguaria daquelas não devia ser desperdiçada.
- Realmente… Giovanna e Josué, vocês se superaram. Estão de parabéns! Foi uma ótima escolha. Onde acharam ele?
- Aqui próximo, na esquina com a Tanabi. Avistei ele de dentro do carro e Josué estacionou antes de ele dobrar a rua. Quando ele estava passando, descemos e eu fiquei encarando ele. Josué o provocou, dizendo que ele ia acabar caindo se não parasse de olhar mulher daquele jeito. - Giovanna ria ao lembrar da cena.
- O cara parecia um mané! Disse só um “foi mal” e continuou andando. A safada da Giovanna ficou dando mole pra ele. Quando ele olhou pra trás, sentei um sopapo na cara dele. Ele caiu na hora, hahaha. Mas como a Giovanna me garantiu que a senhora realmente ia gostar dele, concordei em trazê-lo. - completou Josué olhando pro homem.
- Vocês foram ótimos! E por terem me feito essa surpresa tão boa, vão ganhar a noite de folga. Podem sair e se divertir. Porque eu vou me divertir com esse aqui. Mas nada de mortes, ouviu bem, Josué? - disse.
- Claro… sem problemas, senhora Aline. Onde eu o deixo? - quis saber Josué.
- No quarto dos brinquedos, por favor.  
Giovanna e ele riram maliciosamente. Josué levou o homem até o local indicado. Depois, conversamos mais algumas amenidade e nos despedimos.
Sabia que tinha que pensar melhor sobre o que iria fazer com o chefe e a minha situação acerca de Danilo, mas também precisava me divertir e relaxar. Um dos meus passatempos prediletos era fazer um jogo de masoquismo com homens. Gostava de subjugá-los, de torturá-los e de beber seu sangue. Uns acabavam não resistindo ao processo e morriam. Eles tinham que ser bonitos e atraentes. Se o sangue deles fosse saboroso, conservava-os comigo por dias. Se sobrevivessem, eu apagava suas memórias e os deixava por aí. Apenas por diversão e entretenimento. Uma válvula de escape para descontar minhas frustrações…
Fui ao encontro do humano. Entrei no tal quarto e tranquei a porta. Como morava em apartamento, estava à merce de barulhos e ouvidos incovenientes dos vizinhos. Por isso, mandei construir este quarto planejado para realizar meus fetiches. Ele possuía isolamento acústico, de modo que qualquer tipo de som poderia ser emitido sem incomodar ninguém ou me expôr. Instrumentos pontiagudos, perfurantes, de tortura e masoquismo estavam à minha disposição, para me entreter com meu brinquedo da maneira que minha imaginação permitisse. No centro daquele quarto, havia uma mesa, onde normalmente amarrava os brinquedos bem firmes pelos pés e pelas mãos. Assim, eles ficavam bem imobilizados.
Josué havia amarrado o homem naquela mesa. Me aproximei dele e o fitei por algum tempo. Aquele homem era diferente. Senti algo nele, porém não sabia explicar o que era.
A carteira e outros pertences pessoais dele estavam numa bancada próximas. Queria saber o nome dele antes de começar.
Olhei nos documentos. Ele tinha nome de imperador.

Se chamava Júlio.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Capítulo 4




- Daniloooo, saia agora de onde estiver. Você deixou uma mulher necessitada. Não se faz isso com uma donzela.
Andava… aliás, mancava pelo corredor da empresa captando o aroma do sangue, literalmente farejando o ar. Conforme avançava, o cheiro ia ficando cada vez mais forte. Eu precisava pegar logo o desgraçado e acabar com aquela farra. Se ele não estivesse nos planos do chefe, seria capaz de arrancar sua cabeça fora. Nenhum humano havia me feito de idiota assim, mas estava apreciando esse jogo de gato e rato. Antes de entregá-lo, pelo menos daria uns bons socos na cara dele.
No final do corredor, avistei a recepção. Havia um cheiro de sangue mais ali forte e continuei. Passei pelo balcão e pelo elevador de onde havia saído para me encontrar com Danilo. Como pude me permitir sair do meu próprio plano assim dessa forma? Havia sido imprudente em aceitar, mas como era uma ordem do chefe fazer isso hoje, tinha de improvisar e fazer dar certo. Meu cargo entre os meus era alto. Tinha de dar um exemplo impecável.
E meus olhos aguçados não deixaram de notar uma gota de sangue no chão. Segui por esse caminho, mais a frente, indo parar no corredor do outro lado da recepção. Chegando no final dele, vi uma porta. Havia uma mancha de sangue na maçaneta. Era uma saída de emergência. Passei por ela e deixei a porta se fechar atrás de mim. Tudo ficou escuro, porém conseguia enxergar da mesma forma. Era uma capacidade que nós vampiros tínhamos. Além de outros aprimoramentos no restante dos sentidos. Por isso, a ausência total de luz não foi empecilho para ver mais uma gota de sangue escada acima. Havia uma placa ali dizendo “TELHADO”, com uma seta apontando. Sem pensar, subi as escadas e precisei da ajuda do corrimão para me sustentar. O ferimento feito com a prata ainda ia demorar a parar de doer. Nem saberia quando ia cicatrizar direito. Com uma dieta generosa em sangue, quem sabe…
“Daqui ele não vai escapar”, pensei. “Chega de palhaçada!”
Abri a porta com estrondo. Alguns pombos até voaram dali com o barulho. Vi Danilo parado na outra extremidade do telhado, de frente para mim. Ele também se assustou.
- Fim da linha, carneirinho! - disse.
- Fique longe de mim! - gritou Danilo, que estava com a mão no pescoço, segurando o corte que eu havia feito. Ele chorava feito uma criança, como se o tivessem violado. Sério que o chefe queria mesmo aquela cara para sua coleção?
- Não há porque chorar dessa forma! Tudo ficará bem. Venha comigo! - disse, usando um tom acalentado.
- Não... Quero... Morrer... Sugar... Meu... Sangue.
Deus! Revirei os olhos.
- É necessário eu beber parte do seu sangue, sim! Mas não vou te matar. Você vai morrer naturalmente no processo.
Danilo me encarou com os olhos chorosos, mas dignos de curiosidade genuína.
- O que você é?
- Sou uma vampira!
- O quê? - Parecia que as palavras não faziam sentido para ele. Tentava encontrar algo lógico em sua mente para interpretar o que ouviu. Estava confuso, naturalmente, pois para o gado, o lobo não existe.
- Isso mesmo o que você ouviu. Sou uma vampira, de carne e osso. E hoje a noite tenho um propósito a cumprir com você!
- E que propósito é esse… o que você quer comigo?
Estava ficando impaciente. Queria que a missão fosse cumprida o mais rápido possível. Me aproximei alguns passos enquanto dizia:
- Você foi escolhido, querido. Dentre tantas pessoas que existem e tantos que almejam isso, você foi o escolhido para se juntar a mim e a meu chefe. Completar a família, digamos assim. Você será mais como um adotado. Será convertido em vampiro, assim como eu. Para que possamos ter influência sobre o setor em que sua empresa atua. E isso continuará! Mais pessoas de cargos e setores importantes estarão sob os olhos do chefe. Claro, a sua dieta vai mudar. Você sentirá uma fome enorme por sangue, mas não se preocupe, nós vamos te ajudar com isso. Venha sim? Facilite as coisas e não me faça te levar à força!
- Você… eu não quero ser um monstro como você… você deve... Ser louca... Isso sim! Uma palhaça!
Danilo saiu correndo em disparada para a ponta do parapeito, escalando e ficando lá no alto.
Me aproximei do jeito que podia, quase correndo e mancando. Com certeza ele estava fazendo drama. Tinha de pará-lo!
- Desça já daí, carneirinho! Não queremos que se machuque, não é mesmo? - questionei, doce e gentil. Não queria que ele fizesse nenhuma besteira.
- Eu não vou com você! Se você não se afastar agora, vou pular daqui! - Danilo tentava falar com convicção, mas claro que era mentira.
- Desça já daí!
- Saia de perto de mim, estou avisando! - ele abria os braços para gritar.
- Danilo, quero que você entenda uma coisa...
- JÁ DISSE PARA SE AFASTAR!
Intransigente e miserável! Como eu queria torcer aquele pescoço uns 180º… ouvir seus ossinhos estalando… ver seus olhos virando…
Respirei fundo. Não estava nem um pouco contente com aquilo.
- Tudo bem, tudo bem! Eu me afasto! Desça já daí e vamos conversar melhor!
Fui alguns metros para longe dele. Quando se sentiu seguro, Danilo desceu do parapeito.
- Danilo… imagine um mundo onde ninguém pode contra você… onde você é mais forte que os outros… onde ninguém pode te ferir. Imagine tendo poder e recursos para comandar a sua empresa da forma que você sempre quis… fazendo e decretando dentro todas as coisas que você quer. Imagine… não é algo maravilhoso?
- A troco que de que você me oferece tudo isso? Se as lendas realmente forem reais, terei que beber sangue humano, como você. Não quero ser um monstro sugador de sangue!
- Esse é o preço que temos que pagar para sobrevivermos. Só que em breve, você aprenderá a controlar melhor a sede. Você poderá ser mais rápido, mais ágil, verá e sentirá o mundo ao seu redor como nunca sentiu antes.
Ele me olhou firmemente nos olhos.
- Sempre fui cético, Aline. Acho que a morte é o fim e que não existe outro lado. Mas agora eu tenho certeza de que existem destinos piores do que ela.
De repente, ele estava com o celular na mão. Havia utilizado a discagem automática!
- Segurança, por favor, eu preciso de ajuda! Estou…
- Filho de uma puta! - foi a única coisa que consegui pensar naquele momento. Sem perder tempo, avancei com tudo, mesmo estando com a perna em condições não muito favoráveis. Consegui alcancá-lo e tirei o celular da mão dele. Só que as coisas saíram do controle. Nunca imaginei que isso pudesse acontecer, entretanto ele havia tomado sua decisão e cumpriu o que prometera. Tentei segurá-lo pela camisa, mas era tarde demais. Danilo havia se jogado no vazio da noite.
Fiquei paralisada, sem ter nenhuma reação acerca do que aconteceu naquele momento. Tudo havia perdido o rumo de uma forma orquestral. Como se as coisas da noite de hoje estivessem programadas para dar errado.
E agora? O que eu ia fazer? Como eu ia levar o executivo para o chefe se ele havia pulado do prédio? “Fodeu, fodeu, mil vezes fodeu!”, pensei comigo mesma! Estava num beco sem saída, não tinha o que fazer, não tinha desculpas a dar. O chefe não gostava de desculpas, só queria o trabalho bem feito. E eu havia estragado tudo com minha imprudência.
Precisava pensar em alguma solução o mais rápido possível, principalmente para escapar daquele local antes que achassem o corpo. Tinha que sair, tinha que sair…
Voltei o mais rápido que pude para o andar de baixo. Não havia reparado que entre um lance de escada e outro havia uma porta bem discreta. Forcei a maçaneta. Estava destrancada e acabei entrando. Era um pequeno depósito com produtos e outros utensílios de limpeza. Tinha um par de luvas amarelas, de borracha.
De repente, uma ideia!
Coloquei as luvas para que não houvessem impressões digitais, limpei as gotas de sangue do chão e da maçaneta da porta que dava acesso ao telhado do prédio.
Fui até a sala do Danilo e, em um arquivo em branco no computador, escrevi uma carta de despedida como se fosse ele, dizendo que amava a todos, mas que estava cansado de ter as responsabilidades da empresa sob suas costas, sem ter a perspectiva de poder construir uma vida conjugal com alguém e não via mais sentido em nada.
Lembrei das câmeras de segurança. Eu tinha aparecido em trezentas imagens e gravações diferentes só esta noite. Precisava encontrar a sala da segurança, onde haviam os monitores e gravações. Poderia fazer algo para apagar a minha vinda nessa empresa. Abri a primeira gaveta para ver se encontrava alguma coisa útil. Nada!
O destino me sorriu quando abri a segunda gaveta e encontrei uma pilha de papéis, onde bem em cima havia uma lista de ramais, com o nome do responsável pelo setor e o andar onde ele se encontrava.

ÁLVARO - CHEFE DE SEGURANÇA - RAMAL 5336 - 3º SUBSOLO

Peguei o elevador direto para o local indicado na folha. Parecia uma eternidade o trajeto de volta à garagem. Percorri o local e avistei algumas portas. Fui até elas e vi escrito “SALA DE SEGURANÇA”. Não tinha ninguém lá, dava para ouvir o silêncio, a ausência de pulmões respirando ou de corações pulsando.
A porta também estava aberta, então a fechei atrás de mim logo em seguida e acessei os arquivos do computador. Não foi uma tarefa muito difícil, pois estou acostumada a hackear alguns sites ou sistemas. Tenho bons anos de vida e sei usar um computador melhor que a Geração X e Y juntas!
Encontrei os arquivos das câmeras. Joguei eles todos na lixeira e de lá, deletei do sistema. Aquele dia não havia existido na empresa de Danilo Mansur. Saí rápido de lá. Não tinha ninguém. Realmente parecia que Danilo havia dispensado todo mundo, menos o segurança do portão. Que otário! Bom, melhor para mim!
Subi um lance de escadas, indo parar novamente no 2º subsolo. Avistei meu carro ao longe, liberei o alarme, entrei e saí com ele calmamente, como se nada tivesse acontecido. Guardei as luvas na bolsa, já que agora elas eram consideradas provas de um homicídio. Fechei os vidros, que tinham insufilm e parei para liberarem minha passagem pelo portão, que se abriu logo quando o segurança viu meu carro.
Saí pela noite e ganhei as ruas, livre!
Contudo, tinha problemas muito mais sérios para resolver. O que iria dizer ao chefe? Como justificaria essa falha? Eu não sabia. Era uma questão de tempo até nos encontrarmos novamente. E ele ia me encontrar, mais cedo ou mais tarde.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Capítulo 3

Pelo espelho do retrovisor conferi minha maquiagem, enquanto o trânsito não andava na Doutor Arnaldo. Fazia alguns minutos que estávamos parados em frente ao cemitério do Araçá. Não sei se era acidente ou trânsito, mas São Paulo sempre estaria caótica no horário de pico. Porém, não liguei porque eu estava no horário e ainda teria alguns minutos para me atrasar, caso fosse necessário. O importante é que meus olhos estavam sedutores, enquanto meu batom… estava de matar!
Minha mente estava focada no plano. Planejei levar Danilo para um motel bem luxuoso, daqueles com garagens privadas, banheiras de hidromassagem maravilhosas e lençóis de cetim. A ideia era deixá-lo completamente confortável, afinal de contas a transmutação era apenas para pessoas especiais. E o chefe deixava isso bem claro. Danilo, incrivelmente bonito e galanteador, iria tentar me seduzir. Eu, a fingida moça virgem, iria ficar de frescura, mas aos poucos, eu ia aproveitar e abusar do corpo dele. Daríamos uma e no clímax, morderia aquele pescoço gostoso e depois, o faria beber do meu sangue e aguardaria seu despertar.
Acelerei um pouco, achando que o transito ia começar a correr livremente, porém, durou muito pouco. Tive que frear o carro novamente. Nisso, ouvi meu celular tocando. Estava recebendo uma mensagem. Era Danilo.
Aproveitei para dar uma olhada e trocamos mais mensagens.


HOJE


Danilo Mansur: Eai, gatona, tudo bem? Por acaso está a caminho?
Aline: Oi bonito, sim, estou presa no trânsito!
Danilo Mansur: Ah sim… acho que vou me atrasar mais do que o esperado :(
Aline: Sério? Sem problemas! Eu também acho que vou me atrasar por causa desse trânsito, mas estou quase chegando.
Danilo Mansur: Talvez eu não consiga te encontrar no local marcado a tempo, por isso quero propor outra coisa, mas que vai beneficiar a nós dois, hehe


Caí na gargalhada quando li aquilo. Os homens são bem mais criativos com a cabeça de baixo, sem dúvidas.


Aline: HAHAHAHA, o que tem em mente, “senhor presidente”?
Danilo Mansur: Venha até a minha empresa. Não tem ninguém aqui! Hoje eu dispensei todo mundo. Quero que você conheça a minha sala, onde eu trabalho, essas coisas…
Aline: Parece uma ótima ideia. Onde é?
Danilo Mansur: vou te passar a localização. Quando você chegar, se identifique na portaria e guarde o carro no estacionamento, na vaga em que o segurança te indicar. Pegue o elevador nos fundos do estacionamento e suba até o 25º andar.
Aline: E depois?
Danilo Mansur: Depois que quando as portas do elevador se abrirem, estarei lá para te recepcionar.
Aline: E depois? HAHAHA
Danilo Mansur: Bom… depois a gente improvisa e meu tempo será todo seu, rs


Ele enviou a localização do endereço onde estava. Era na Avenida Paulista mesmo, então não precisaria desviar o caminho. Nesse momento, o trânsito começou a fluir novamente e os carros estavam em movimento. Tomei uma buzinada, mas acelerei rápido. Com uma das mãos segurando o telefone, respondi:


Aline: Ok! Recebi sua localização. Já estou a caminho.
Danilo Mansur: Perfeito. Espero que goste de champagne rosé! HAHA
Aline: Meu predileto! Hey, preciso prestar atenção no trânsito pra não bater o carro, rs… Até daqui a pouco.
Danilo Mansur: Até :*


Mal sabia Danilo que minha bebida aquela noite seria uma dose generosa do sangue dele. Esse sim era o melhor champagne de todos! Contudo, não era da minha personalidade aceitar uma alteração no plano que eu havia feito. Tinha que fazer algo totalmente discreto, sem dar motivos para especulações humanas. Afinal, nós, vampiros, vivíamos nas sombras, por baixo das cortinas do teatro real. E gostávamos de deixar o gado acreditar que era o predador supremo do planeta. É bom assim, quando suas vidas lhes é tirada sem ao menos saber o porquê. Ter o sangue drenado até a morte sem nem entender que existe algo pior do que eles nesse mundo.
Demorei uns 20 minutos para atravessar a Avenida Paulista naquele horário. Os semáforos demoravam demais; ia me atrasar um pouco além do horário combinado. Aproveitando toda a potência do motor do meu HB20, fiz uma curva ágil da avenida para a entrada do prédio. Parei em frente ao portão do estacionamento. Um chiado eletrônico se fez ouvir no auto falante ao lado do vidro do motorista.
- Boa noite! - disse o segurança. Era possível sentir que ele não estava de bom humor.
- Boa noite! Eu vim ver o Danilo Mansur. Tenho uma reunião com ele. Meu nome é Aline. - disse, na minha melhor voz de mulher bonita e simpática.
- Só um momento, por gentileza. - novamente ouvi estática, um pouco de silêncio e logo depois, o segurança retornou.
- Pode entrar. Desça até o 2º subsolo. Vire à direta. Pode estacionar em qualquer vaga. Pegue o elevador no final da garagem até…
- Tudo bem, eu já sei! - disse de forma cortante. - Estou atrasada! Pode me liberar logo, por favor?
- Tudo bem, senhorita. Boa noite. - disse o segurança. Ainda o ouvi resmungar alguma coisa sobre minha rispidez. Foda-se. Um dia eu pediria pra ele repetir o que disse olhando diretamente nos meus olhos e depois o jantaria por passatempo.
O portão se abriu e eu acelerei para dentro. Desci a rampa, alcancei o 2º subsolo e estacionei o carro. Fui até o elevador e apertei o 25º andar. O espelho era enorme, então aproveitei para dar uma última olhada na minha produção. Estava tudo exatamente como eu queria: bonita e sedutora, porém sem ser vulgar.
Dos auto falantes do elevador, soava a música Bitter Sweet Symphony, da banda The Verve. Fez muito sucesso há algum tempo atrás. Lembro que passava sempre na MTV. Sem perceber, tamborilava os dedos ao sabor da cancão. A letra dela significava muito para mim.
A voz eletrônica do elevador anunciou o 25º andar e as portas se abriram. Danilo estava quase colado na porta com uma garrafa de champagne nas mãos e um buquê de rosas vermelhas na outra. Aquilo me soou um pouco piegas na hora. Mas logo passou.
- Venha, entre! - disse ele! - São pra você!
- As rosas, a champagne ou os dois? - e ri novamente. Na verdade, nós dois rimos. Ele tinha um jeito interessante. Qualquer garota mais tola se apaixonaria por ele muito fácil.
Me pediu desculpas, colocou a champagne no porta gelo, ao lado de duas taças e um pano branco. Não se via hábitos tão refinados sempre. Sorrindo, voltou para mim e me entregou o buquê. Eu gostava muito de rosas vermelhas.
- Muito obrigada! - disse sorrindo.
- Não por isso. Achei que você gostaria. Essas rosas estão muito bonitas e logo lembrei de uma mulher bem bonita também.
Se ainda fosse possível, estaria corada de vergonha. Por dois motivos, entretanto, não fico mais. Primeiro, porque ficar corado é coisa de humano. Segundo, mesmo se eu ainda fosse uma humana, já estaria cansada de ouvir essas cantadas baratas.
- Venha até a minha sala! - disse Danilo. Sorria, mostrando os dentes bem brancos. Ele era jovem para o cargo, com apenas 42 de idade. Era maduro e com um olhar que demonstrava conhecer muito desse mundo. E ao mesmo tempo, tinha uma jovialidade invejável.
Quando entrei na sala, percebi que tinha bom gosto. Os móveis refletiam isso. Modernos e elegantes. De um desses móveis, ele serviu champagne nas duas taças. Me entregou uma delas e brindamos. Ele bebeu quase tudo e eu fingi dar um gole. Não queria que meu corpo regurgitasse aquela bebida, mas também não queria fazer parecer uma desfeita. Coloquei as rosas em cima de uma mesa de canto.
- Que bom que você veio, Aline. Venha, sente-se aqui no sofá. - Danilo já segurava na minha mão e me puxava junto com ele em direção ao sofá de couro negro.
Sentamos e conversamos um pouco sobre as coisas que ele fazia na empresa. Os joelhos dele estavam propositalmente encostados nos meus, entretanto, deixei do jeito que estava. Depois de um tempo, ele pediu para contar coisas da minha vida pra ele.
- Depois! - respondi, fitando-o com malícia.
Ele entendeu o recado. Colocou a mão no meu joelho, que em seguida, subiu para dentro do meu vestido. E me beijou com tudo. Não resisti. Estava gostoso e me deixei levar por aquelas sensações, que ainda continuavam da vida humana, só que de forma mais intensa. Logo, estávamos em cima da mesa mesmo. Havia alguns papéis em cima dela. Bagunçamos tudo.
As coisas estavam esquentando demais. Conseguia sentir e ouvir a pulsação do coração dele. O sangue bombeando e sendo jorrado por aquelas veias. Senti uma fome absurda. Fome por tê-lo dentro de mim e por beber daquele sangue quente. Eu queimava por dentro. Pena que teria que transformá-lo. Senão, beberia ele inteiro!
Instintivamente, eu estava por cima dele. Meus cabelos balançavam enquanto arqueava a cabeça para trás. Podia sentir minhas presas já rasgando a carne e alcançando a jugular. Aquele néctar quente e consistente, doce e reconfortante, descendo pela garganta. E minhas coxas e joelhos o prenderam embaixo de mim. Quando a sede batia, era quase impossível aguentar.
- Sabe o que vai acontecer agora, bonitão? - perguntei, arqueando a cabeça para trás.
Ele segurava minha cintura com força. Tinha uma pegada boa.
- O que vai acontecer, fala pra mim?
Voltei a cabeça e olhei bem nos olhos dele. Ele encarou meus olhos por um instante. E sua expressão mudou quando os viu vermelhos. Eu sorri. Ele viu minhas presas bem pontiagudas. Ameaçou gritar, mas tão rápida como relâmpago, tapei a boca dele. Pressionei bem o crânio dele contra o móvel com a minha força. Ele tentava se debater, mas estava completamente preso. Não podia fazer nada com as mãos a não ser me estapear em vão.
Ele me encarava com expressão de puro terror. Cheguei perto dos olhos dele e disse:
- Agora eu vou te comer, querido. Bem devagar.
Passei a língua pela jugular dele. Pulsava de medo, de adrenalina. O cheiro dele era magnífico. Uma mistura de perfume importado, com o cheiro do medo e do sangue dele. Com a unha do polegar direito, rasguei de leve o pescoço. Um filete de sangue começou a escorrer do corte. Danilo continuava a se debater freneticamente, tentando desesperadamente se livrar do meu aperto. Seu sistema nervoso deve ter recebido a dor do corte e o sangue escorrendo pelo tato do pesçoco. Estava em pânico. Sentia que ele apalpava os papéis da mesa, como se aquilo fosse ajudar. Não me importava. O cheiro do sangue atingiu minhas narinas e o mundo ganhou um novo sentido. Só queria aquilo. Rosnei como uma leoa faminta.
De repente, senti uma pontada na coxa, seguida de uma dor horrível, que queimava profundamente. Parecia ácido! Soltei um grito tão bestial… parecido com os de Ricardo. E a dor era tão calcinante que não enxerguei mais nada. Senti apenas que meu corpo despencava e logo caía no chão. Esperneava tentando alcançar o que me machucava. E quando alcancei queimei a mão também! Num acesso de pânico, Danilo achou um abridor de cartas no meio dos papéis. De prata! E o espetou na minha coxa! Retirei aquela merda de mim, que deixou minha carne toda queimada. Comecei a recobrar os sentidos e levantei devagar, sentindo a ardência suprema da prata. Danilo tinha sumido. Com certeza, saiu correndo. Saí da sala dele furiosa! Mas não seria difícil de achá-lo. Conseguia sentir o cheiro do sangue à distância.
- Você vai me pagar, filho de uma puta! - gritei, enquanto ia atrás dele.