Pelo espelho do retrovisor conferi minha maquiagem, enquanto o trânsito não andava na Doutor Arnaldo. Fazia alguns minutos que estávamos parados em frente ao cemitério do Araçá. Não sei se era acidente ou trânsito, mas São Paulo sempre estaria caótica no horário de pico. Porém, não liguei porque eu estava no horário e ainda teria alguns minutos para me atrasar, caso fosse necessário. O importante é que meus olhos estavam sedutores, enquanto meu batom… estava de matar!
Minha mente estava focada no plano. Planejei levar Danilo para um motel bem luxuoso, daqueles com garagens privadas, banheiras de hidromassagem maravilhosas e lençóis de cetim. A ideia era deixá-lo completamente confortável, afinal de contas a transmutação era apenas para pessoas especiais. E o chefe deixava isso bem claro. Danilo, incrivelmente bonito e galanteador, iria tentar me seduzir. Eu, a fingida moça virgem, iria ficar de frescura, mas aos poucos, eu ia aproveitar e abusar do corpo dele. Daríamos uma e no clímax, morderia aquele pescoço gostoso e depois, o faria beber do meu sangue e aguardaria seu despertar.
Acelerei um pouco, achando que o transito ia começar a correr livremente, porém, durou muito pouco. Tive que frear o carro novamente. Nisso, ouvi meu celular tocando. Estava recebendo uma mensagem. Era Danilo.
Aproveitei para dar uma olhada e trocamos mais mensagens.
HOJE
Danilo Mansur: Eai, gatona, tudo bem? Por acaso está a caminho?
Aline: Oi bonito, sim, estou presa no trânsito!
Danilo Mansur: Ah sim… acho que vou me atrasar mais do que o esperado :(
Aline: Sério? Sem problemas! Eu também acho que vou me atrasar por causa desse trânsito, mas estou quase chegando.
Danilo Mansur: Talvez eu não consiga te encontrar no local marcado a tempo, por isso quero propor outra coisa, mas que vai beneficiar a nós dois, hehe
Caí na gargalhada quando li aquilo. Os homens são bem mais criativos com a cabeça de baixo, sem dúvidas.
Aline: HAHAHAHA, o que tem em mente, “senhor presidente”?
Danilo Mansur: Venha até a minha empresa. Não tem ninguém aqui! Hoje eu dispensei todo mundo. Quero que você conheça a minha sala, onde eu trabalho, essas coisas…
Aline: Parece uma ótima ideia. Onde é?
Danilo Mansur: vou te passar a localização. Quando você chegar, se identifique na portaria e guarde o carro no estacionamento, na vaga em que o segurança te indicar. Pegue o elevador nos fundos do estacionamento e suba até o 25º andar.
Aline: E depois?
Danilo Mansur: Depois que quando as portas do elevador se abrirem, estarei lá para te recepcionar.
Aline: E depois? HAHAHA
Danilo Mansur: Bom… depois a gente improvisa e meu tempo será todo seu, rs
Ele enviou a localização do endereço onde estava. Era na Avenida Paulista mesmo, então não precisaria desviar o caminho. Nesse momento, o trânsito começou a fluir novamente e os carros estavam em movimento. Tomei uma buzinada, mas acelerei rápido. Com uma das mãos segurando o telefone, respondi:
Aline: Ok! Recebi sua localização. Já estou a caminho.
Danilo Mansur: Perfeito. Espero que goste de champagne rosé! HAHA
Aline: Meu predileto! Hey, preciso prestar atenção no trânsito pra não bater o carro, rs… Até daqui a pouco.
Danilo Mansur: Até :*
Mal sabia Danilo que minha bebida aquela noite seria uma dose generosa do sangue dele. Esse sim era o melhor champagne de todos! Contudo, não era da minha personalidade aceitar uma alteração no plano que eu havia feito. Tinha que fazer algo totalmente discreto, sem dar motivos para especulações humanas. Afinal, nós, vampiros, vivíamos nas sombras, por baixo das cortinas do teatro real. E gostávamos de deixar o gado acreditar que era o predador supremo do planeta. É bom assim, quando suas vidas lhes é tirada sem ao menos saber o porquê. Ter o sangue drenado até a morte sem nem entender que existe algo pior do que eles nesse mundo.
Demorei uns 20 minutos para atravessar a Avenida Paulista naquele horário. Os semáforos demoravam demais; ia me atrasar um pouco além do horário combinado. Aproveitando toda a potência do motor do meu HB20, fiz uma curva ágil da avenida para a entrada do prédio. Parei em frente ao portão do estacionamento. Um chiado eletrônico se fez ouvir no auto falante ao lado do vidro do motorista.
- Boa noite! - disse o segurança. Era possível sentir que ele não estava de bom humor.
- Boa noite! Eu vim ver o Danilo Mansur. Tenho uma reunião com ele. Meu nome é Aline. - disse, na minha melhor voz de mulher bonita e simpática.
- Só um momento, por gentileza. - novamente ouvi estática, um pouco de silêncio e logo depois, o segurança retornou.
- Pode entrar. Desça até o 2º subsolo. Vire à direta. Pode estacionar em qualquer vaga. Pegue o elevador no final da garagem até…
- Tudo bem, eu já sei! - disse de forma cortante. - Estou atrasada! Pode me liberar logo, por favor?
- Tudo bem, senhorita. Boa noite. - disse o segurança. Ainda o ouvi resmungar alguma coisa sobre minha rispidez. Foda-se. Um dia eu pediria pra ele repetir o que disse olhando diretamente nos meus olhos e depois o jantaria por passatempo.
O portão se abriu e eu acelerei para dentro. Desci a rampa, alcancei o 2º subsolo e estacionei o carro. Fui até o elevador e apertei o 25º andar. O espelho era enorme, então aproveitei para dar uma última olhada na minha produção. Estava tudo exatamente como eu queria: bonita e sedutora, porém sem ser vulgar.
Dos auto falantes do elevador, soava a música Bitter Sweet Symphony, da banda The Verve. Fez muito sucesso há algum tempo atrás. Lembro que passava sempre na MTV. Sem perceber, tamborilava os dedos ao sabor da cancão. A letra dela significava muito para mim.
A voz eletrônica do elevador anunciou o 25º andar e as portas se abriram. Danilo estava quase colado na porta com uma garrafa de champagne nas mãos e um buquê de rosas vermelhas na outra. Aquilo me soou um pouco piegas na hora. Mas logo passou.
- Venha, entre! - disse ele! - São pra você!
- As rosas, a champagne ou os dois? - e ri novamente. Na verdade, nós dois rimos. Ele tinha um jeito interessante. Qualquer garota mais tola se apaixonaria por ele muito fácil.
Me pediu desculpas, colocou a champagne no porta gelo, ao lado de duas taças e um pano branco. Não se via hábitos tão refinados sempre. Sorrindo, voltou para mim e me entregou o buquê. Eu gostava muito de rosas vermelhas.
- Muito obrigada! - disse sorrindo.
- Não por isso. Achei que você gostaria. Essas rosas estão muito bonitas e logo lembrei de uma mulher bem bonita também.
Se ainda fosse possível, estaria corada de vergonha. Por dois motivos, entretanto, não fico mais. Primeiro, porque ficar corado é coisa de humano. Segundo, mesmo se eu ainda fosse uma humana, já estaria cansada de ouvir essas cantadas baratas.
- Venha até a minha sala! - disse Danilo. Sorria, mostrando os dentes bem brancos. Ele era jovem para o cargo, com apenas 42 de idade. Era maduro e com um olhar que demonstrava conhecer muito desse mundo. E ao mesmo tempo, tinha uma jovialidade invejável.
Quando entrei na sala, percebi que tinha bom gosto. Os móveis refletiam isso. Modernos e elegantes. De um desses móveis, ele serviu champagne nas duas taças. Me entregou uma delas e brindamos. Ele bebeu quase tudo e eu fingi dar um gole. Não queria que meu corpo regurgitasse aquela bebida, mas também não queria fazer parecer uma desfeita. Coloquei as rosas em cima de uma mesa de canto.
- Que bom que você veio, Aline. Venha, sente-se aqui no sofá. - Danilo já segurava na minha mão e me puxava junto com ele em direção ao sofá de couro negro.
Sentamos e conversamos um pouco sobre as coisas que ele fazia na empresa. Os joelhos dele estavam propositalmente encostados nos meus, entretanto, deixei do jeito que estava. Depois de um tempo, ele pediu para contar coisas da minha vida pra ele.
- Depois! - respondi, fitando-o com malícia.
Ele entendeu o recado. Colocou a mão no meu joelho, que em seguida, subiu para dentro do meu vestido. E me beijou com tudo. Não resisti. Estava gostoso e me deixei levar por aquelas sensações, que ainda continuavam da vida humana, só que de forma mais intensa. Logo, estávamos em cima da mesa mesmo. Havia alguns papéis em cima dela. Bagunçamos tudo.
As coisas estavam esquentando demais. Conseguia sentir e ouvir a pulsação do coração dele. O sangue bombeando e sendo jorrado por aquelas veias. Senti uma fome absurda. Fome por tê-lo dentro de mim e por beber daquele sangue quente. Eu queimava por dentro. Pena que teria que transformá-lo. Senão, beberia ele inteiro!
Instintivamente, eu estava por cima dele. Meus cabelos balançavam enquanto arqueava a cabeça para trás. Podia sentir minhas presas já rasgando a carne e alcançando a jugular. Aquele néctar quente e consistente, doce e reconfortante, descendo pela garganta. E minhas coxas e joelhos o prenderam embaixo de mim. Quando a sede batia, era quase impossível aguentar.
- Sabe o que vai acontecer agora, bonitão? - perguntei, arqueando a cabeça para trás.
Ele segurava minha cintura com força. Tinha uma pegada boa.
- O que vai acontecer, fala pra mim?
Voltei a cabeça e olhei bem nos olhos dele. Ele encarou meus olhos por um instante. E sua expressão mudou quando os viu vermelhos. Eu sorri. Ele viu minhas presas bem pontiagudas. Ameaçou gritar, mas tão rápida como relâmpago, tapei a boca dele. Pressionei bem o crânio dele contra o móvel com a minha força. Ele tentava se debater, mas estava completamente preso. Não podia fazer nada com as mãos a não ser me estapear em vão.
Ele me encarava com expressão de puro terror. Cheguei perto dos olhos dele e disse:
- Agora eu vou te comer, querido. Bem devagar.
Passei a língua pela jugular dele. Pulsava de medo, de adrenalina. O cheiro dele era magnífico. Uma mistura de perfume importado, com o cheiro do medo e do sangue dele. Com a unha do polegar direito, rasguei de leve o pescoço. Um filete de sangue começou a escorrer do corte. Danilo continuava a se debater freneticamente, tentando desesperadamente se livrar do meu aperto. Seu sistema nervoso deve ter recebido a dor do corte e o sangue escorrendo pelo tato do pesçoco. Estava em pânico. Sentia que ele apalpava os papéis da mesa, como se aquilo fosse ajudar. Não me importava. O cheiro do sangue atingiu minhas narinas e o mundo ganhou um novo sentido. Só queria aquilo. Rosnei como uma leoa faminta.
De repente, senti uma pontada na coxa, seguida de uma dor horrível, que queimava profundamente. Parecia ácido! Soltei um grito tão bestial… parecido com os de Ricardo. E a dor era tão calcinante que não enxerguei mais nada. Senti apenas que meu corpo despencava e logo caía no chão. Esperneava tentando alcançar o que me machucava. E quando alcancei queimei a mão também! Num acesso de pânico, Danilo achou um abridor de cartas no meio dos papéis. De prata! E o espetou na minha coxa! Retirei aquela merda de mim, que deixou minha carne toda queimada. Comecei a recobrar os sentidos e levantei devagar, sentindo a ardência suprema da prata. Danilo tinha sumido. Com certeza, saiu correndo. Saí da sala dele furiosa! Mas não seria difícil de achá-lo. Conseguia sentir o cheiro do sangue à distância.
- Você vai me pagar, filho de uma puta! - gritei, enquanto ia atrás dele.
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