quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Capítulo 4




- Daniloooo, saia agora de onde estiver. Você deixou uma mulher necessitada. Não se faz isso com uma donzela.
Andava… aliás, mancava pelo corredor da empresa captando o aroma do sangue, literalmente farejando o ar. Conforme avançava, o cheiro ia ficando cada vez mais forte. Eu precisava pegar logo o desgraçado e acabar com aquela farra. Se ele não estivesse nos planos do chefe, seria capaz de arrancar sua cabeça fora. Nenhum humano havia me feito de idiota assim, mas estava apreciando esse jogo de gato e rato. Antes de entregá-lo, pelo menos daria uns bons socos na cara dele.
No final do corredor, avistei a recepção. Havia um cheiro de sangue mais ali forte e continuei. Passei pelo balcão e pelo elevador de onde havia saído para me encontrar com Danilo. Como pude me permitir sair do meu próprio plano assim dessa forma? Havia sido imprudente em aceitar, mas como era uma ordem do chefe fazer isso hoje, tinha de improvisar e fazer dar certo. Meu cargo entre os meus era alto. Tinha de dar um exemplo impecável.
E meus olhos aguçados não deixaram de notar uma gota de sangue no chão. Segui por esse caminho, mais a frente, indo parar no corredor do outro lado da recepção. Chegando no final dele, vi uma porta. Havia uma mancha de sangue na maçaneta. Era uma saída de emergência. Passei por ela e deixei a porta se fechar atrás de mim. Tudo ficou escuro, porém conseguia enxergar da mesma forma. Era uma capacidade que nós vampiros tínhamos. Além de outros aprimoramentos no restante dos sentidos. Por isso, a ausência total de luz não foi empecilho para ver mais uma gota de sangue escada acima. Havia uma placa ali dizendo “TELHADO”, com uma seta apontando. Sem pensar, subi as escadas e precisei da ajuda do corrimão para me sustentar. O ferimento feito com a prata ainda ia demorar a parar de doer. Nem saberia quando ia cicatrizar direito. Com uma dieta generosa em sangue, quem sabe…
“Daqui ele não vai escapar”, pensei. “Chega de palhaçada!”
Abri a porta com estrondo. Alguns pombos até voaram dali com o barulho. Vi Danilo parado na outra extremidade do telhado, de frente para mim. Ele também se assustou.
- Fim da linha, carneirinho! - disse.
- Fique longe de mim! - gritou Danilo, que estava com a mão no pescoço, segurando o corte que eu havia feito. Ele chorava feito uma criança, como se o tivessem violado. Sério que o chefe queria mesmo aquela cara para sua coleção?
- Não há porque chorar dessa forma! Tudo ficará bem. Venha comigo! - disse, usando um tom acalentado.
- Não... Quero... Morrer... Sugar... Meu... Sangue.
Deus! Revirei os olhos.
- É necessário eu beber parte do seu sangue, sim! Mas não vou te matar. Você vai morrer naturalmente no processo.
Danilo me encarou com os olhos chorosos, mas dignos de curiosidade genuína.
- O que você é?
- Sou uma vampira!
- O quê? - Parecia que as palavras não faziam sentido para ele. Tentava encontrar algo lógico em sua mente para interpretar o que ouviu. Estava confuso, naturalmente, pois para o gado, o lobo não existe.
- Isso mesmo o que você ouviu. Sou uma vampira, de carne e osso. E hoje a noite tenho um propósito a cumprir com você!
- E que propósito é esse… o que você quer comigo?
Estava ficando impaciente. Queria que a missão fosse cumprida o mais rápido possível. Me aproximei alguns passos enquanto dizia:
- Você foi escolhido, querido. Dentre tantas pessoas que existem e tantos que almejam isso, você foi o escolhido para se juntar a mim e a meu chefe. Completar a família, digamos assim. Você será mais como um adotado. Será convertido em vampiro, assim como eu. Para que possamos ter influência sobre o setor em que sua empresa atua. E isso continuará! Mais pessoas de cargos e setores importantes estarão sob os olhos do chefe. Claro, a sua dieta vai mudar. Você sentirá uma fome enorme por sangue, mas não se preocupe, nós vamos te ajudar com isso. Venha sim? Facilite as coisas e não me faça te levar à força!
- Você… eu não quero ser um monstro como você… você deve... Ser louca... Isso sim! Uma palhaça!
Danilo saiu correndo em disparada para a ponta do parapeito, escalando e ficando lá no alto.
Me aproximei do jeito que podia, quase correndo e mancando. Com certeza ele estava fazendo drama. Tinha de pará-lo!
- Desça já daí, carneirinho! Não queremos que se machuque, não é mesmo? - questionei, doce e gentil. Não queria que ele fizesse nenhuma besteira.
- Eu não vou com você! Se você não se afastar agora, vou pular daqui! - Danilo tentava falar com convicção, mas claro que era mentira.
- Desça já daí!
- Saia de perto de mim, estou avisando! - ele abria os braços para gritar.
- Danilo, quero que você entenda uma coisa...
- JÁ DISSE PARA SE AFASTAR!
Intransigente e miserável! Como eu queria torcer aquele pescoço uns 180º… ouvir seus ossinhos estalando… ver seus olhos virando…
Respirei fundo. Não estava nem um pouco contente com aquilo.
- Tudo bem, tudo bem! Eu me afasto! Desça já daí e vamos conversar melhor!
Fui alguns metros para longe dele. Quando se sentiu seguro, Danilo desceu do parapeito.
- Danilo… imagine um mundo onde ninguém pode contra você… onde você é mais forte que os outros… onde ninguém pode te ferir. Imagine tendo poder e recursos para comandar a sua empresa da forma que você sempre quis… fazendo e decretando dentro todas as coisas que você quer. Imagine… não é algo maravilhoso?
- A troco que de que você me oferece tudo isso? Se as lendas realmente forem reais, terei que beber sangue humano, como você. Não quero ser um monstro sugador de sangue!
- Esse é o preço que temos que pagar para sobrevivermos. Só que em breve, você aprenderá a controlar melhor a sede. Você poderá ser mais rápido, mais ágil, verá e sentirá o mundo ao seu redor como nunca sentiu antes.
Ele me olhou firmemente nos olhos.
- Sempre fui cético, Aline. Acho que a morte é o fim e que não existe outro lado. Mas agora eu tenho certeza de que existem destinos piores do que ela.
De repente, ele estava com o celular na mão. Havia utilizado a discagem automática!
- Segurança, por favor, eu preciso de ajuda! Estou…
- Filho de uma puta! - foi a única coisa que consegui pensar naquele momento. Sem perder tempo, avancei com tudo, mesmo estando com a perna em condições não muito favoráveis. Consegui alcancá-lo e tirei o celular da mão dele. Só que as coisas saíram do controle. Nunca imaginei que isso pudesse acontecer, entretanto ele havia tomado sua decisão e cumpriu o que prometera. Tentei segurá-lo pela camisa, mas era tarde demais. Danilo havia se jogado no vazio da noite.
Fiquei paralisada, sem ter nenhuma reação acerca do que aconteceu naquele momento. Tudo havia perdido o rumo de uma forma orquestral. Como se as coisas da noite de hoje estivessem programadas para dar errado.
E agora? O que eu ia fazer? Como eu ia levar o executivo para o chefe se ele havia pulado do prédio? “Fodeu, fodeu, mil vezes fodeu!”, pensei comigo mesma! Estava num beco sem saída, não tinha o que fazer, não tinha desculpas a dar. O chefe não gostava de desculpas, só queria o trabalho bem feito. E eu havia estragado tudo com minha imprudência.
Precisava pensar em alguma solução o mais rápido possível, principalmente para escapar daquele local antes que achassem o corpo. Tinha que sair, tinha que sair…
Voltei o mais rápido que pude para o andar de baixo. Não havia reparado que entre um lance de escada e outro havia uma porta bem discreta. Forcei a maçaneta. Estava destrancada e acabei entrando. Era um pequeno depósito com produtos e outros utensílios de limpeza. Tinha um par de luvas amarelas, de borracha.
De repente, uma ideia!
Coloquei as luvas para que não houvessem impressões digitais, limpei as gotas de sangue do chão e da maçaneta da porta que dava acesso ao telhado do prédio.
Fui até a sala do Danilo e, em um arquivo em branco no computador, escrevi uma carta de despedida como se fosse ele, dizendo que amava a todos, mas que estava cansado de ter as responsabilidades da empresa sob suas costas, sem ter a perspectiva de poder construir uma vida conjugal com alguém e não via mais sentido em nada.
Lembrei das câmeras de segurança. Eu tinha aparecido em trezentas imagens e gravações diferentes só esta noite. Precisava encontrar a sala da segurança, onde haviam os monitores e gravações. Poderia fazer algo para apagar a minha vinda nessa empresa. Abri a primeira gaveta para ver se encontrava alguma coisa útil. Nada!
O destino me sorriu quando abri a segunda gaveta e encontrei uma pilha de papéis, onde bem em cima havia uma lista de ramais, com o nome do responsável pelo setor e o andar onde ele se encontrava.

ÁLVARO - CHEFE DE SEGURANÇA - RAMAL 5336 - 3º SUBSOLO

Peguei o elevador direto para o local indicado na folha. Parecia uma eternidade o trajeto de volta à garagem. Percorri o local e avistei algumas portas. Fui até elas e vi escrito “SALA DE SEGURANÇA”. Não tinha ninguém lá, dava para ouvir o silêncio, a ausência de pulmões respirando ou de corações pulsando.
A porta também estava aberta, então a fechei atrás de mim logo em seguida e acessei os arquivos do computador. Não foi uma tarefa muito difícil, pois estou acostumada a hackear alguns sites ou sistemas. Tenho bons anos de vida e sei usar um computador melhor que a Geração X e Y juntas!
Encontrei os arquivos das câmeras. Joguei eles todos na lixeira e de lá, deletei do sistema. Aquele dia não havia existido na empresa de Danilo Mansur. Saí rápido de lá. Não tinha ninguém. Realmente parecia que Danilo havia dispensado todo mundo, menos o segurança do portão. Que otário! Bom, melhor para mim!
Subi um lance de escadas, indo parar novamente no 2º subsolo. Avistei meu carro ao longe, liberei o alarme, entrei e saí com ele calmamente, como se nada tivesse acontecido. Guardei as luvas na bolsa, já que agora elas eram consideradas provas de um homicídio. Fechei os vidros, que tinham insufilm e parei para liberarem minha passagem pelo portão, que se abriu logo quando o segurança viu meu carro.
Saí pela noite e ganhei as ruas, livre!
Contudo, tinha problemas muito mais sérios para resolver. O que iria dizer ao chefe? Como justificaria essa falha? Eu não sabia. Era uma questão de tempo até nos encontrarmos novamente. E ele ia me encontrar, mais cedo ou mais tarde.

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