segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Capítulo 5



Saí em disparada. Precisava sumir, então acelerei o carro e corri como nunca. Peguei a Brigadeiro Luiz Antônio sentido Ibirapuera. Provavelmente fui pega em um ou dois radares por aí. Precisava rodar, refletir e pôr a cabeça no lugar. Além disso, estava faminta. Meu organismo estava cobrando a ausência do sangue do Danilo. Contudo, me contentaria com qualquer outro. Ainda não tinha dado meia-noite. A lua estava bem cheia no céu e iria aproveitar para fazer uma boquinha.
Estacionei próximo ao Parque do Ibirapuera, em um local ermo. Tinha um local (antigamente um estacionamento) onde alguns homens e mulheres se encontravam para fazer sexo, seja de forma voluntária ou profissional. Muitas pessoas estavam no local. Inclusive, alguns comerciantes vendendo bebidas, pizzas e outras coisas menos lícitas.
Entrei no local, observando os presentes. Vários carros estavam com os porta-malas abertos, exibindo caixas de som de última geração. Estilos como pop ou eletrônico eram tocados ao mesmo tempo, tornando a “trilha sonora” do local uma cacofonia.
Atraía olhares conforme eu passava, tanto de homens quanto de mulheres. Se quisesse, poderia selecionar parceiros e parceiras sem fim. Tanto para necessidades sexuais quanto alimentícias. Particularmente não tinha frescura com o tipo de sangue que beberia. Etnias, credos e outros conceitos moralmente humanos não importavam mais. Somente o sangue importava. Ele era alimento, sustento. Quando a sede ou a fome vem, o que importa é se saciar. O sangue era como uma droga. Nego ficava frenético quando estava em abstinência. Tinha vampiro que tentava ser bonzinho, não matar, nem nada… só tentar consumir sangue de roedores urbanos ou de Bancos de Sangue… mas esses ficavam loucos rápido com a ausência. O “lance”, para nos mantermos saudáveis, era consumir sangue quente, direto da fonte.
No fim do antigo estacionamento tinha um bosque. Um certo movimento de pessoas indo e vindo dava a impressão de que ali rolavam as coisas escusas. Por isso, entrei por uma das trilhas de terra. O ferimento causado pela prata ainda queimava um pouco, mas conseguia pisar com mais firmeza agora.
Continuei caminhando. Meus ouvidos com capacidade sobrehumanas captavam barulhos molhados, murmúrios e gemidos, vindos de vários lugares. O negócio ali era pesado. E um vampiro pode se divertir demais em locais assim.
A trilha havia chegado ao fim. Vi uma garota parada. Estava de costas para mim e parecia bêbada. Não notou minha presença, pois vampiros tem reflexo e agilidade felinas. É muito difícil de sermos notados. Mesmo em terrenos com obstáculos como grama ou galhos. Se eu ainda fosse humana, com certeza estaria fazendo o maior barulho.
Com firmeza, a agarrei por trás, imobilizando seus braços e sua cabeça. A jugular estava ao alcance e logo cravei meus dentes. O sangue jorrou quente e delicioso na minha boca. Engolia com sofreguidão, parecendo uma criança faminta. Até gemia, tamanho era o prazer. Não demorou muito e senti seu coração enfraquecendo. Era tão difícil não tomar até a última gota! Mas soltei a garota. A contragosto, mas soltei. E a coloquei confortavelmente no chão. Ela estava semiconsciente, os olhos tremiam. Mas ia ficar bem.
Com uma das unhas, aumentei a mordida, para que parecesse um ferimento feito à faca. Depois, me debrucei sobre ela, que olhou direto nos meus olhos.
- Quando encontrarem você, dirá que foi violentada e atacada. Estava escuro e você não viu quem foi.
Ela fez que sim com a cabeça e eu fui embora dali.
Estava me sentindo um pouco melhor. Pelo menos a minha coxa tinha parado de doer. E podia pensar com mais clareza agora.
O sangue da garota fluía dentro do meu organismo, devolvendo vigor às partes necessitadas. Além disso, ele gerou um processo que denominamos como Simbiose. De acordo com microbiólogos vampiros, quando o sangue da presa cai no estômago, uma variante do vírus vampírico é criada, adequado para se hospedar perfeitamente no organismo dela. Bastavam algumas gotas do nosso sangue para a transmissão do vírus e assim, ele se multiplicava extremamente rápido, subjugando e preparando o hospedeiro para suas novas características corpóreas. Por fim, tudo que era humano no hospedeiro morre e ele renasce em uma não-vida, pois clinicamente, seria dado como morto. Um morto andante que se alimentava de sangue humano para viver. Um não-vivo.
Se de alguma forma o nosso sangue entrasse em contato com o organismo da presa sem ao menos termos drenado um pouco do dela, ela morreria no ato. Isso ocorria porque, sem a variante correta, o vírus vampírico entrava em guerra com o sistema imunológico da vítima e destruía suas defesas. Semelhante ao vírus HIV, exceto por sua velocidade, que matava o hospedeiro em questão de horas.
Minha cabeça estava a mil por hora. Os instintos completamente aflorados, podendo, por exemplo, ver gotas de orvalho em uma folha, numa árvore que está do outro lado da rua. Perto dali, estava meu carro. Entrei nele, dei a partida e saí de ré. Engatei a primeira e parti para longe. Decidi dar uma volta pela cidade, ver o movimento e dirigir um pouco. Percorri a Avenida Brasil e entrei na Henrique Schaumann. De lá, acessei a Rebouças, Paulista e Augusta. Caí no centro velho e pela São João, fiz o caminho de volta para o apartamento.
No relógio marcava mais de 02h e não tinha dado conta do tempo passando. Então recebi uma ligação de Josué, um dos meus empregados. Coloquei no viva voz enquanto dirigia.
- Alô, senhora Aline?
- Sim, Josué. Pode falar.
- Onde a senhora está?
- A caminho de casa. Por quê?
-Tenho uma surpresa para a senhora. Estou levando algo de que vai gostar muito.
- Eu devo me animar ou me preocupar com essa sua nova supresa?
Josué riu do outro lado da linha.
- Hahaha, tenho certeza de que a senhora não vai se arrepender.
- Hum... Eu não acredito em você, sabe? Você sempre me causa problemas. Quem me garante que isso não é mais um na lista?
Ele ficou em silêncio por alguns segundos antes de responder.
- Por favor, dê um voto de confiança pra mim, senhora Aline. Quero me redimir das últimas enrascadas que fiz você se enfiar por minha causa. Papo quente, você vai curtir.
- Tudo bem. Já estou chegando.
- Venha logo!
- Josué, eu juro que se você tiver feito alguma merda, nós teremos uma conversa muito séria.
- Pode deixar, senhora.
- Até mais!
Desliguei o telefone um pouco apreensiva. Josué era um vampiro bem alto e um dos meus empregados mais leais. Sabia que podia contar com ele para qualquer coisa. Já me ajudou e até me protegeu diversas vezes em situações de risco. Profissionalmente falando é meu guarda costas quando vamos a eventos públicos. Entretanto, cometia diversas besteiras. Vira e mexe ele deixava um corpo mal encoberto. Sempre que alguém encontrava, juntava Polícia e IML, daí virava a maior confusão. Daquelas que são exibidas em programas “policiais” de péssimo gosto na parte da tarde. Apesar de a sua lealdade ser o seu maior trunfo, uma de suas últimas gafes me deixou tão irada que exigi que ele me chamasse de senhora a partir de então. Ele precisava ser humilhado por um tempo para aprender.
Dado o tempo certo, chego no prédio e estaciono na minha vaga. Da garagem, acesso o elevador e desço no 1º andar, onde fica meu apartamento. Depois de alguns minutos, estou vestida apenas com um robe preto, nua por baixo. E me sinto confortável assim.
O interfone tocou. Era Josué. Libero a entrada dele. Quando abro a porta, vejo-o carregando um homem pelos ombros. Ele estava inconsciente, com a maçã esquerda do rosto inchada e um pequeno corte na região. Parecia que tinha levado um soco na cara. A barba estava meio que por fazer. Tinha aspecto viril, cabelo curto estilo undercut e lábios bem desenhados.
Junto com ele estava outra subordinada minha, chamada Giovanna. Essa era especial, pois havia sido transmutada por mim. Linda, loira, sensual e fatal. Era, assim como Josué, meu braço direito. Ficamos nos olhando por um tempo. Depois, olhei de volta para Josué e aquele humano.
E sorri.
- Quer dizer então que agora você quer me agradar com macho de gueto, é? - questionei Josué com as mãos na cintura.
Ele me olhou de cima a baixo, pois não tinha reparado o quanto aquele hobby desenhava bem meu corpo. Deu uma risada sem graça antes de dizer:
- Bom, de acordo com a Giovanna, esse é de primeira e ela disse que você ia querer ele como brinquedo, não é? - mencionou Josué, olhando para Giovanna.
- Sim, eu achei ele bem gatinho e como conheço bem os seus gostos, achei que você ia querer se divertir um pouco. - Giovanna acariciou os cabelos do homem, sorrindo. - Aline, dê uma lambida na ferida do rosto dele. Sinta o sabor do sangue.
Me aproximei para ver melhor e Josué virou a cabeça dele, de modo que eu pudesse ficar bem de frente para a ferida. Só o cheiro do sangue coagulado me inebriou. Lambi a ferida… era deliciosamente doce. Com a unha, forcei a carne e um filete de sangue escorreu do pequeno corte. Passei a lingua no rosto dele.
“Que delícia!”, pensei.
Nunca havia sentido o gosto de um sangue tão encorpado, tão tenro e tão maravilhoso. Aquilo era sangue de homem de fibra. O conjunto da obra, por assim dizer, era realmente muito interessante. Bonito e tinha um gosto excelente. Outro filete estava despontando do corte. Passei o polegar para limpar a região e o levei a boca. Era como uma gorda comendo doce de leite direito do pote.
E uma iguaria daquelas não devia ser desperdiçada.
- Realmente… Giovanna e Josué, vocês se superaram. Estão de parabéns! Foi uma ótima escolha. Onde acharam ele?
- Aqui próximo, na esquina com a Tanabi. Avistei ele de dentro do carro e Josué estacionou antes de ele dobrar a rua. Quando ele estava passando, descemos e eu fiquei encarando ele. Josué o provocou, dizendo que ele ia acabar caindo se não parasse de olhar mulher daquele jeito. - Giovanna ria ao lembrar da cena.
- O cara parecia um mané! Disse só um “foi mal” e continuou andando. A safada da Giovanna ficou dando mole pra ele. Quando ele olhou pra trás, sentei um sopapo na cara dele. Ele caiu na hora, hahaha. Mas como a Giovanna me garantiu que a senhora realmente ia gostar dele, concordei em trazê-lo. - completou Josué olhando pro homem.
- Vocês foram ótimos! E por terem me feito essa surpresa tão boa, vão ganhar a noite de folga. Podem sair e se divertir. Porque eu vou me divertir com esse aqui. Mas nada de mortes, ouviu bem, Josué? - disse.
- Claro… sem problemas, senhora Aline. Onde eu o deixo? - quis saber Josué.
- No quarto dos brinquedos, por favor.  
Giovanna e ele riram maliciosamente. Josué levou o homem até o local indicado. Depois, conversamos mais algumas amenidade e nos despedimos.
Sabia que tinha que pensar melhor sobre o que iria fazer com o chefe e a minha situação acerca de Danilo, mas também precisava me divertir e relaxar. Um dos meus passatempos prediletos era fazer um jogo de masoquismo com homens. Gostava de subjugá-los, de torturá-los e de beber seu sangue. Uns acabavam não resistindo ao processo e morriam. Eles tinham que ser bonitos e atraentes. Se o sangue deles fosse saboroso, conservava-os comigo por dias. Se sobrevivessem, eu apagava suas memórias e os deixava por aí. Apenas por diversão e entretenimento. Uma válvula de escape para descontar minhas frustrações…
Fui ao encontro do humano. Entrei no tal quarto e tranquei a porta. Como morava em apartamento, estava à merce de barulhos e ouvidos incovenientes dos vizinhos. Por isso, mandei construir este quarto planejado para realizar meus fetiches. Ele possuía isolamento acústico, de modo que qualquer tipo de som poderia ser emitido sem incomodar ninguém ou me expôr. Instrumentos pontiagudos, perfurantes, de tortura e masoquismo estavam à minha disposição, para me entreter com meu brinquedo da maneira que minha imaginação permitisse. No centro daquele quarto, havia uma mesa, onde normalmente amarrava os brinquedos bem firmes pelos pés e pelas mãos. Assim, eles ficavam bem imobilizados.
Josué havia amarrado o homem naquela mesa. Me aproximei dele e o fitei por algum tempo. Aquele homem era diferente. Senti algo nele, porém não sabia explicar o que era.
A carteira e outros pertences pessoais dele estavam numa bancada próximas. Queria saber o nome dele antes de começar.
Olhei nos documentos. Ele tinha nome de imperador.

Se chamava Júlio.

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